UMA FESTA A S. GABRIEL
Nos fins da década de sessenta, princípios de setenta, passei quatro anos da minha vida em França (Nantes) ao serviço da Marinha de Guerra Portuguesa, aquando da construção para a nossa Armada, das fragatas classe João Belo e Submarinos classe Albacora.
Nesse espaço de tempo e por ser um País estrangeiro, com outra língua, outra cultura, costumes e sensibilidades diferentes, várias peripécias me aconteceram e é uma dessas que quero partilhar convosco.
Entre outras tarefas, eu e o meu Amigo e saudoso Fernando Neto, tínhamos a incumbência de satisfazer o intercâmbio que existia no protocolo de acordo firmado entre a Missão Portuguesa e o Centro de Telecomunicações do Exercito Francês.
Sempre que havia necessidade de enviar uma mensagem para as instituições Militares Portuguesas, lá ia eu ou o meu Amigo F. Neto e vice-versa.
Assim, foi-se ganhando com os Franceses uma empatia de cordialidade e amizade nunca esperada, pois dizem que os Franceses são de trato muito frio, o que segundo verifiquei não é assim, antes pelo contrário.
O que acontece é haver uma certa reserva enquanto não verificam a credibilidade do seu interlocutor.
A comprovar devo referir que os nossos Amigos Franceses tinham por norma todos os meses fazer uma festa ao S. Gabriel (Padroeiro das Telecomunicações).
Cotizavam-se entre eles e no fim do mês faziam um lanche para o pessoal das telecomunicações e os dois amigos Portugueses eram sempre convidados.
Era um lanche à base de biscoitos, salgados e mais umas iguarias e como bebidas havia sumos, águas, ricard, pastice e pouco mais.
Entretanto o meu amigo Neto propôs-me:
-“Olha lá Rosa…e se este mês fossemos nós a fazer a festa ao S. Gabriel?..”
Os Franceses haviam de gostar!..
Neste sentido fizemos a proposta aos restantes camaradas de armas e esta foi logo aceite com grande regozijo.
Agora havia que dar voltas á cabeça e às receitas para saber o que é que iamos apresentar para ser um lanche diferente e se possível, com sabores da nossa terra.
-“Olha, fazemos uma entrada com biscoitos da “prache” e vinho do Porto, depois uns salgados com os nossos celebres pasteis de bacalhau e uns camarões cozidos; como bebidas vinho branco da região “o muscadet”e cerveja.
“Depois apresentamos uns panados acompanhados com vinho tinto Português e para finalizar café com biscoitos e como digestivo medronho-mel de Portugal.”
Assim se pensou e se fez e no dia “D” éramos treze pessoas à mesa, dez homens e três senhoras.
Houve logo quem dissesse que o numero treze dava azar, mas alguém retorquiu, não somos treze somos catorze.
-“ Então vocês esqueceram-se de contar com o homenageado, o nosso S.Gabriel.?”
-“Então assim está bem” …e iniciou-se o beberete.
Tudo estava a decorrer na perfeição até que os vinhos do Porto, o muscadet, o tinto Português mais a cerveja e o medronho-mel, começaram a fazer os seus efeitos e vieram acabar com o aprumo.
As Francesas já só diziam:
-“Cest bom……C’est bom……vive notres amis Portuguais.”
E logo de seguida uma senhora não se conteve e desata aos beijos a toda a gente enquanto dizia:
-“Embrasse-moi s’il vous plait.”
O segundo Comandante da Unidade Militar que também tinha sido convidado a nosso pedido, logo se eclipsou e como que por artes mágicas nunca mais ninguém o viu.
Mais tarde o meu colega foi levar a casa a senhora dos beijinhos que mal se equilibrava
de pé.
Os outros… um de cada vez iam dando de “frosque.”
Restavam eu e o sargento Berton, um homem alto e forte de cerca de 45 anos, cabelos curtos mas com um bigode farto, olhos grandes e azuis, ombros largos e braços fortes, sinal de que estava bem preparado fisicamente e a viver um bom período da sua vida, morava nas instalações do quartel.
Já estávamos ambos de orelhas quentes e nariz vermelho, mas o sargento Berton ainda não estava satisfeito e convidou-me para dar uma volta pela Cidade, e lá fomos visitando alguns bares seus conhecidos e bebendo mais uns copos, seguindo aqui o lema que diz:
“Nunca se bebe demais… há sempre lugar para mais um copo.”
Mais tarde…quando já não havia realmente mais lugar para um copinho pequenino, acompanhei o meu Amigo Berton a casa.
A habitação tinha acesso por uma longa escada de pedra.
E interrogo-me eu?
-“ Como é que nós vamos chegar lá acima?”
Diz o meu Amigo Berton:
-“É fácil, já vais ver.”
E, sentando-se no primeiro degrau, põe as mãos atrás das costas apoiando-se no degrau superior, impulsiona o rabo para esse degrau e assim sucessivamente.
-“Já vistes como é!..”
-“Podes ir embora que eu vou dormir que nem um patinho… e amanhã acordo fresquinho que nem uma alface.”
-“Sim… já vi como é, não há duvida que é uma boa ideia, já aprendi alguma coisa hoje… olha… se eu precisar faço o mesmo.”
Peguei na minha moto e lá vou eu a caminho de casa, onde cheguei são e salvo, mas não me perguntem como…porque eu também não sei!..
No dia seguinte a minha preocupação era saber como estava o meu Amigo Berton e fui procurá-lo.
Lá estava ele impecavelmente fardado, como se fosse para uma parada militar, fresquinho que nem uma alface acabada de ser apanhada da horta, sinal que dormiu realmente que nem um patinho e que tinha também muito treino na arte de despejar copos.
A partir desta data não havia conversa nenhuma lá entre o pessoal do Centro de Transmissões que não fosse dar á festa dos Portugueses.
E, se até essa data éramos bem-vindos e queridos, a partir daí quase passámos a ser venerados.
Venâncio Rosa
Nos fins da década de sessenta, princípios de setenta, passei quatro anos da minha vida em França (Nantes) ao serviço da Marinha de Guerra Portuguesa, aquando da construção para a nossa Armada, das fragatas classe João Belo e Submarinos classe Albacora.
Nesse espaço de tempo e por ser um País estrangeiro, com outra língua, outra cultura, costumes e sensibilidades diferentes, várias peripécias me aconteceram e é uma dessas que quero partilhar convosco.
Entre outras tarefas, eu e o meu Amigo e saudoso Fernando Neto, tínhamos a incumbência de satisfazer o intercâmbio que existia no protocolo de acordo firmado entre a Missão Portuguesa e o Centro de Telecomunicações do Exercito Francês.
Sempre que havia necessidade de enviar uma mensagem para as instituições Militares Portuguesas, lá ia eu ou o meu Amigo F. Neto e vice-versa.
Assim, foi-se ganhando com os Franceses uma empatia de cordialidade e amizade nunca esperada, pois dizem que os Franceses são de trato muito frio, o que segundo verifiquei não é assim, antes pelo contrário.
O que acontece é haver uma certa reserva enquanto não verificam a credibilidade do seu interlocutor.
A comprovar devo referir que os nossos Amigos Franceses tinham por norma todos os meses fazer uma festa ao S. Gabriel (Padroeiro das Telecomunicações).
Cotizavam-se entre eles e no fim do mês faziam um lanche para o pessoal das telecomunicações e os dois amigos Portugueses eram sempre convidados.
Era um lanche à base de biscoitos, salgados e mais umas iguarias e como bebidas havia sumos, águas, ricard, pastice e pouco mais.
Entretanto o meu amigo Neto propôs-me:
-“Olha lá Rosa…e se este mês fossemos nós a fazer a festa ao S. Gabriel?..”
Os Franceses haviam de gostar!..
Neste sentido fizemos a proposta aos restantes camaradas de armas e esta foi logo aceite com grande regozijo.
Agora havia que dar voltas á cabeça e às receitas para saber o que é que iamos apresentar para ser um lanche diferente e se possível, com sabores da nossa terra.
-“Olha, fazemos uma entrada com biscoitos da “prache” e vinho do Porto, depois uns salgados com os nossos celebres pasteis de bacalhau e uns camarões cozidos; como bebidas vinho branco da região “o muscadet”e cerveja.
“Depois apresentamos uns panados acompanhados com vinho tinto Português e para finalizar café com biscoitos e como digestivo medronho-mel de Portugal.”
Assim se pensou e se fez e no dia “D” éramos treze pessoas à mesa, dez homens e três senhoras.
Houve logo quem dissesse que o numero treze dava azar, mas alguém retorquiu, não somos treze somos catorze.
-“ Então vocês esqueceram-se de contar com o homenageado, o nosso S.Gabriel.?”
-“Então assim está bem” …e iniciou-se o beberete.
Tudo estava a decorrer na perfeição até que os vinhos do Porto, o muscadet, o tinto Português mais a cerveja e o medronho-mel, começaram a fazer os seus efeitos e vieram acabar com o aprumo.
As Francesas já só diziam:
-“Cest bom……C’est bom……vive notres amis Portuguais.”
E logo de seguida uma senhora não se conteve e desata aos beijos a toda a gente enquanto dizia:
-“Embrasse-moi s’il vous plait.”
O segundo Comandante da Unidade Militar que também tinha sido convidado a nosso pedido, logo se eclipsou e como que por artes mágicas nunca mais ninguém o viu.
Mais tarde o meu colega foi levar a casa a senhora dos beijinhos que mal se equilibrava
de pé.
Os outros… um de cada vez iam dando de “frosque.”
Restavam eu e o sargento Berton, um homem alto e forte de cerca de 45 anos, cabelos curtos mas com um bigode farto, olhos grandes e azuis, ombros largos e braços fortes, sinal de que estava bem preparado fisicamente e a viver um bom período da sua vida, morava nas instalações do quartel.
Já estávamos ambos de orelhas quentes e nariz vermelho, mas o sargento Berton ainda não estava satisfeito e convidou-me para dar uma volta pela Cidade, e lá fomos visitando alguns bares seus conhecidos e bebendo mais uns copos, seguindo aqui o lema que diz:
“Nunca se bebe demais… há sempre lugar para mais um copo.”
Mais tarde…quando já não havia realmente mais lugar para um copinho pequenino, acompanhei o meu Amigo Berton a casa.
A habitação tinha acesso por uma longa escada de pedra.
E interrogo-me eu?
-“ Como é que nós vamos chegar lá acima?”
Diz o meu Amigo Berton:
-“É fácil, já vais ver.”
E, sentando-se no primeiro degrau, põe as mãos atrás das costas apoiando-se no degrau superior, impulsiona o rabo para esse degrau e assim sucessivamente.
-“Já vistes como é!..”
-“Podes ir embora que eu vou dormir que nem um patinho… e amanhã acordo fresquinho que nem uma alface.”
-“Sim… já vi como é, não há duvida que é uma boa ideia, já aprendi alguma coisa hoje… olha… se eu precisar faço o mesmo.”
Peguei na minha moto e lá vou eu a caminho de casa, onde cheguei são e salvo, mas não me perguntem como…porque eu também não sei!..
No dia seguinte a minha preocupação era saber como estava o meu Amigo Berton e fui procurá-lo.
Lá estava ele impecavelmente fardado, como se fosse para uma parada militar, fresquinho que nem uma alface acabada de ser apanhada da horta, sinal que dormiu realmente que nem um patinho e que tinha também muito treino na arte de despejar copos.
A partir desta data não havia conversa nenhuma lá entre o pessoal do Centro de Transmissões que não fosse dar á festa dos Portugueses.
E, se até essa data éramos bem-vindos e queridos, a partir daí quase passámos a ser venerados.
Venâncio Rosa

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