O CICLISTA









Se bem me lembro decorria o ano de 1963, prestava eu serviço na Marinha de Guerra Portuguesa no Alfeite e, estava em gozo de férias regulamentares em S. Bartolomeu do Sul, concelho e freguesia de Castro Marim. Numa tarde dessas férias encontrava-me a jogar dominó na taberna lá da terra com os amigos de infância, quando entrou um amigo do meu pai, o Senhor José Pedro Vasconcelos, pai de João Pedro Vasconcelos, meu amigo de tenra idade, apesar de ser três anos mais novo do que eu.

O Sr. José Vasconcelos trazia uma incumbência que era vender umas rifas de uma bicicleta especial de corrida da marca peugeot e que pertencia ao seu filho, ciclista de primeira água e cuja bicicleta pertencera no passado ao famoso ciclista do Ginásio de Tavira, Jorge Corvo, sobejamente conhecido em todo o País e estrangeiro, pois obteve vários segundos lugares na Volta a Portugal, penso que três, além de muitos outros bons prémios e classificações.

Para ajudar nas rifas comprei um bilhete que me custou 2$50 (dois escudos e cinquenta centavos).

Como foi para ajudar nunca mais me lembrei disso, só que passados 15 dias, o Senhor Vasconcelos apareceu-me em casa a fazer a entrega da bicicleta com a qual eu tinha sido contemplado, através da referida rifa.

Esta atitude de rifar a bicicleta tem uma razão de ser:

É que o João Vasconcelos de temperamento rijo e com 19 anos já tinha conquistado todos os primeiros prémios nos circuitos velocipédicos em que participou e foi incorporado na equipa principal do Ginásio Clube de Tavira, que participou na Volta a Portugal desse ano.

Só que esta modalidade desportiva, como todas as outras, têm o seu preço, as suas tácticas e regras que são impostas pelos “managers”, treinadores e responsáveis pelas equipas que são compostas pelo seu chefe de fila, que neste caso era o glorioso Jorge Corvo, seguido do seu companheiro Sérgio Páscoa e restantes elementos onde se encontrava o meu amigo João Vasconcelos.

Dado o início à Volta a Portugal, o Vasconcelos salientou-se desde o princípio com vários esticões e tentativas de fuga que eram mandadas suspender pelos responsáveis da equipa do Ginásio, tendo todos os ciclistas que se submeter ao apoio ao chefe de fila, segundo a táctica imposta pelos ditos responsáveis.

Cansado de ser proibido de fazer o que sentia com forças e capacidade para fazer, chegou à meta da Cidade de Tavira, onde foi o melhor classificado da equipa, encostou a bicicleta e disse que não corria mais.

Daí resultou a rifa da bicicleta da qual fui o premiado.

Terminadas as férias, regresso á base Naval do Alfeite onde prestava serviço militar e na bagagem vinha a celebérrima bicicleta, que eu aproveitava nas horas livres para fazer o meu circuito velocipédico preferido e que era:

Corroios, Vale Milhaços, Charneca da Caparica, Costa da Caparica, Trafaria, Almada, Cova da Piedade e passada uma hora estava em Corroios de novo.

Isto demorou alguns meses até que verifiquei que não tinha pedalada para ciclista.

Resolvi então fazer eu também umas rifas da bicicleta e tentei vendê-las como podia.

Cifrei as rifas a 5$00 (cinco escudos) cada, fiz mil números e determinei uma data para o sorteio, que foi a lotaria do Natal, (os três últimos algarismos do primeiro prémio da dita lotaria) determinavam o contemplado.

Como só consegui vender cerca de metade das rifas, o número contemplado não tinha sido vendido e voltei a ficar com o dinheiro e com a bicicleta.

Continuei a fazer o mesmo circuito até que noutra oportunidade de férias volto a S. Bartolomeu e levo de volta a bicicleta, que tentei vender mas o melhor que consegui foi simplesmente uma troca com uma “pasteleira”, bicicleta de montanha, de um velho amigo.

O negócio ficou selado, tendo o meu amigo que me dar além da sua pasteleira mais 400$00 (quatrocentos escudos) mas como não tinha esse dinheiro, acertamos que me dava de imediato 50$00 (cinquenta escudos) e pagaria os restantes 350$00 (trezentos e cinquenta escudos) conforme lhe fosse possível.

Perder os 350$00 não foi problema, que eu já tinha desfrutado bem da bicicleta, o mais grave é que também perdi o amigo que cada vez que eu ia á terra e o vislumbrava, fugia-me.

Isto aconteceu várias vezes até que esquecemos de vez o assunto e a dívida foi perdoada.











POEMA A CONDIZER





Dia do meu casamento

Foi grande o entretimento

Lá na casa dos pais dela,

Mas se tornar a casar

Heide-me acautelar

Cair em tal esparrela.





O meu sogro era atleta

Tinha uma bicicleta

Com toda a engrenagem

E eu antes de anoitecer

Pensei então em correr e

Ir fazer a viagem.





Peguei na bicicleta,

Tentei cortar a meta

E com força pedalei

Julgava que ia seguro,

Mas encontrei um grande furo

Nessa altura então parei.





Voltei para trás então,

Com a bicicleta á mão

Aos pais a fui entregar.

Tome, guarde-a bem guardada,

Ela já estava furada

Romperam-lhe a câmara-de-ar.















O meu sogro exclamou

Foi você que a furou

Com essa grande loucura.

Não te zangues rapazinho

Deita-se um remendinho

Tudo na vida tem cura.





Eu não tomo esse encargo,

O buraco é muito largo

Não me meto ao serviço.

Foi certo que com ela andei

Mas não fui eu que a furei

Não tenho nada com isso.





Agora juro-vos por minha fé,

Poderei correr á farta,

Mas primeiro tiro a carta

Ou senão ando a pé.









Venâncio Rosa

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