UM ESPERTO E DOIS PARVOS
Tal como nas outras instituições também na marinha de guerra existem casos peculiares, sendo um dos mais abrangentes os contrabandos com predominância de tabaco, whisky e relógios, nos quais o meu amigo Alberto era o campeão, movimentava milhões.
Era e ainda é um homem de grande coração, desenrascava monetariamente muitos camaradas, mas também tinha a sua face de resmungão, chegando mesmo a responder a oficiais superiores:
-“Quando o senhor comandante pagar o que me deve terá autoridade moral para me falar dessa maneira, até lá tenhamos maneiras”.
Quando em 1962, com seis meses de marinha, três meses de recruta e outros três na I.T.E. (instrução técnica elementar) fui destacado para o N.R.P. “S. Nicolau”, estava ele atracado no portão Nº 5 da base naval do Alfeite.
Cheguei a bordo e no dia seguinte já estava de serviço como adjunto ao cabo de quarto.
À noitinha o cabo de quarto diz-me:
-“Fica aí na “tolda” (a parte da ré do navio) e não sais daí que eu vou para a proa (parte da frente do navio).
-“Está bem Sr. cabo”.
Entretanto chega um carro de luzes apagadas e pôs-se a fazer sinais de luzes.
Fiquei logo a tremer a julgar que íamos ser atacados, mas como o Sr. cabo me disse para não sair da tolda, eu não saí.
Entretanto o carro foi-se embora, mas pouco depois voltou, com os mesmos procedimentos (sinais de luzes).
-“Isto aqui há gato,” comentava eu para com os meus botões, mas não me ocorria o que fosse e tomei um pouco de coragem e fui até á proa procurar o meu chefe de turno, quando me deparei com uma azáfama extraordinária a tirarem caixas de cartão do paiol da amarra para o exterior que um funcionário de fato de macaco azul ia colocando na viatura que estava à entrada do cais de atracação.
O Sr. cabo Menezes quando me viu ordenou que voltasse para o meu posto de vigia e que amanhã logo falávamos.
No dia seguinte chamou-me em particular, pegou numa nota de 20$00 e deu-ma dizendo.
-“Tu ontem à noite não vistes nada”.
-“Sim …Sim…Sr. cabo” …e o assunto ficou encerrado.
Era uma remessa de tabaco Americano…
Entretanto não muito longe estava atracada a fragata Corte Real que dentro de dias iria participar em manobras navais no Mediterrâneo e os candongueiros perfilhavam-se a fazer as encomendas aos seus acólitos, para material de Marrocos que é mais barato e dá para ganhar mais uns “cobres”.
Entre os vários protagonistas estava o bem conhecido Ferreira que conseguiu um bom carregamento no regresso da Corte Real.
Agora só faltava passar o material para fora da Base Naval, porque clientes cá fora não faltavam e pagavam bem.
Na altura estavam na moda entre outros artigos os casacos de cabedal, que davam lucros chorudos.
E, foi escolhido o dia da saída do material, em função dos guardas da Base Naval que estavam de serviço e o nosso amigo Ferreira arranca com o carro carregado rumo á saída.
O primeiro controlo foi no portão da Base Naval onde estava de serviço o guarda Aurélio.
Estavam em conversações Ferreira/Aurélio em que o Ferreira diz só ter 100$00 para os dois guardas e que teria de deixar o dinheiro no guarda do portão da Romeira, que depois faria contas com o Aurélio, mas este teria de justificar a sua participação, para que o Abel, que era o guarda da Romeira, lhe desse a parte que lhe cabia.
A senha que o Aurélio teria de mostrar ao Abel era uma meia fornecida pelo Ferreira, que o advertiu:
-“Se não mostrares a meia ele não te dá a tua parte”.
O segundo controlo foi no portão da Romeira e diz o guarda Abel:
-“Já sabia que vinhas aí”.
-“Olha que isto hoje está mau”.
O Ferreira com a sua cara de convencido responde:
-“Eh pá, já tratei de tudo com o Aurélio”.
-“Só tinha 100$00 que deixei lá (mas não deixou) e ele vai dar-te a tua parte, mas tens de lhe mostrar esta meia que é igual a uma que lá deixei com os 100$00, para conferir, senão ele não te dá o dinheiro”.
Tudo acordado e o Ferreira sai com o carregamento que lhe renderá para cima de três contos, o que era muito dinheiro para a época, e tudo isto a troco de umas meias.
Terminado o quarto de serviço o guarda Abel dirige-se de imediato à Base Naval para ver se encontra aí o Aurélio para fazerem a partilha dos 100$00, que o espertalhão do Ferreira não deu nem a um nem a outro.
-O Abel: “Então o Ferreira desta vez portou-se bem?”
-O Aurélio: “Espero que tenhas a minha parte do dinheiro para me dares”.
-“Tenho aqui a meia que ele deixou para servir como prova.”
-O Abel: “ Isso espero eu de ti, também tenho aqui a outra meia que foi a única coisa que ele me deixou”.
-“Ai o sacana… comprou-nos por um par de meias…”
Os contrabandistas são capazes de tudo e mais não digo.
Venâncio Rosa
Tal como nas outras instituições também na marinha de guerra existem casos peculiares, sendo um dos mais abrangentes os contrabandos com predominância de tabaco, whisky e relógios, nos quais o meu amigo Alberto era o campeão, movimentava milhões.
Era e ainda é um homem de grande coração, desenrascava monetariamente muitos camaradas, mas também tinha a sua face de resmungão, chegando mesmo a responder a oficiais superiores:
-“Quando o senhor comandante pagar o que me deve terá autoridade moral para me falar dessa maneira, até lá tenhamos maneiras”.
Quando em 1962, com seis meses de marinha, três meses de recruta e outros três na I.T.E. (instrução técnica elementar) fui destacado para o N.R.P. “S. Nicolau”, estava ele atracado no portão Nº 5 da base naval do Alfeite.
Cheguei a bordo e no dia seguinte já estava de serviço como adjunto ao cabo de quarto.
À noitinha o cabo de quarto diz-me:
-“Fica aí na “tolda” (a parte da ré do navio) e não sais daí que eu vou para a proa (parte da frente do navio).
-“Está bem Sr. cabo”.
Entretanto chega um carro de luzes apagadas e pôs-se a fazer sinais de luzes.
Fiquei logo a tremer a julgar que íamos ser atacados, mas como o Sr. cabo me disse para não sair da tolda, eu não saí.
Entretanto o carro foi-se embora, mas pouco depois voltou, com os mesmos procedimentos (sinais de luzes).
-“Isto aqui há gato,” comentava eu para com os meus botões, mas não me ocorria o que fosse e tomei um pouco de coragem e fui até á proa procurar o meu chefe de turno, quando me deparei com uma azáfama extraordinária a tirarem caixas de cartão do paiol da amarra para o exterior que um funcionário de fato de macaco azul ia colocando na viatura que estava à entrada do cais de atracação.
O Sr. cabo Menezes quando me viu ordenou que voltasse para o meu posto de vigia e que amanhã logo falávamos.
No dia seguinte chamou-me em particular, pegou numa nota de 20$00 e deu-ma dizendo.
-“Tu ontem à noite não vistes nada”.
-“Sim …Sim…Sr. cabo” …e o assunto ficou encerrado.
Era uma remessa de tabaco Americano…
Entretanto não muito longe estava atracada a fragata Corte Real que dentro de dias iria participar em manobras navais no Mediterrâneo e os candongueiros perfilhavam-se a fazer as encomendas aos seus acólitos, para material de Marrocos que é mais barato e dá para ganhar mais uns “cobres”.
Entre os vários protagonistas estava o bem conhecido Ferreira que conseguiu um bom carregamento no regresso da Corte Real.
Agora só faltava passar o material para fora da Base Naval, porque clientes cá fora não faltavam e pagavam bem.
Na altura estavam na moda entre outros artigos os casacos de cabedal, que davam lucros chorudos.
E, foi escolhido o dia da saída do material, em função dos guardas da Base Naval que estavam de serviço e o nosso amigo Ferreira arranca com o carro carregado rumo á saída.
O primeiro controlo foi no portão da Base Naval onde estava de serviço o guarda Aurélio.
Estavam em conversações Ferreira/Aurélio em que o Ferreira diz só ter 100$00 para os dois guardas e que teria de deixar o dinheiro no guarda do portão da Romeira, que depois faria contas com o Aurélio, mas este teria de justificar a sua participação, para que o Abel, que era o guarda da Romeira, lhe desse a parte que lhe cabia.
A senha que o Aurélio teria de mostrar ao Abel era uma meia fornecida pelo Ferreira, que o advertiu:
-“Se não mostrares a meia ele não te dá a tua parte”.
O segundo controlo foi no portão da Romeira e diz o guarda Abel:
-“Já sabia que vinhas aí”.
-“Olha que isto hoje está mau”.
O Ferreira com a sua cara de convencido responde:
-“Eh pá, já tratei de tudo com o Aurélio”.
-“Só tinha 100$00 que deixei lá (mas não deixou) e ele vai dar-te a tua parte, mas tens de lhe mostrar esta meia que é igual a uma que lá deixei com os 100$00, para conferir, senão ele não te dá o dinheiro”.
Tudo acordado e o Ferreira sai com o carregamento que lhe renderá para cima de três contos, o que era muito dinheiro para a época, e tudo isto a troco de umas meias.
Terminado o quarto de serviço o guarda Abel dirige-se de imediato à Base Naval para ver se encontra aí o Aurélio para fazerem a partilha dos 100$00, que o espertalhão do Ferreira não deu nem a um nem a outro.
-O Abel: “Então o Ferreira desta vez portou-se bem?”
-O Aurélio: “Espero que tenhas a minha parte do dinheiro para me dares”.
-“Tenho aqui a meia que ele deixou para servir como prova.”
-O Abel: “ Isso espero eu de ti, também tenho aqui a outra meia que foi a única coisa que ele me deixou”.
-“Ai o sacana… comprou-nos por um par de meias…”
Os contrabandistas são capazes de tudo e mais não digo.
Venâncio Rosa
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