TOMA LÁ LARANJAS






O Algarve é a Província Portuguesa que se situa mais a Sul do País e é também a mais pequena de todas elas.

Faz fronteira a Norte com o Baixo Alentejo, a Leste com a Espanha, a Sul e a Oeste com o Oceano Atlântico.

Tem uma paisagem acidentada, com algumas Serras e praias, muitas e maravilhosas praias de areias finas, águas azuis, límpidas e quentes.

Tem muitos cartões-de-visita dos quais destaco:

A Serra de Monchique, com 902 metros de altitude, é o ponto mais alto do Algarve.

Alberga ainda umas importantes termas de nome “Caldas de Monchique,” cujas águas milagrosas proporciona ajuda nas maleitas dos pacientes, e a sua zona envolvente fértil em vegetação variada e rara proporciona aos seus utilizadores momentos únicos, dignos de gravar na memória e guardar no coração para toda a eternidade, tal é a felicidade que se sente naquele paraíso.

Esta Serra tem ainda vários ribeiros e ribeiras, merecendo por isso especial atenção dos turistas que gostam também da natureza e prescindem de um dia de praia para se deliciarem com a paisagem, que é imponente.

A Serra do Caldeirão, com os seus 580 metros de altura é uma Serra modesta mas com uma paisagem muito especial devido á sua rede hidrográfica.

O rio Arade nasce na Serra do Caldeirão passa por Silves, Portimão, Lagoa e vai desaguar no Atlântico, em Portimão.

É actualmente importante turisticamente, visto partirem de Portimão mini-cruzeiros que navegam por toda a costa Algarvia e ainda um ferry que faz ligação ao Funchal e Madeira, creio que uma vez por semana.

A Ria Formosa é um sapal protegido pelo estatuto de parque natural, tem uma área de cerca 18.400 hectares e estende-se pelos Concelhos de Loulé, Faro, Olhão, Tavira e Vila Real de Santo António.

É importante como habitat de aves aquáticas e também viveiros de bivalves.

O cabo de S. Vicente é o ponto mais a Sudoeste da Europa, dá guarida á Fortaleza de Sagres, onde o nosso Infante D. Henrique, também conhecido pelo Infante de Sagres ou o Navegador nos anos 1.500 morou, estudou e planeou com êxito as suas explorações marítimas.

Até à época do Infante D. Henrique o cabo Bojador era para a Europa o ponto conhecido mais a Sul na costa africana.

Gil Eanes, que comandou uma das expedições, foi o primeiro a passá-lo em 1434, eliminando com este bem sucedido feito, os medos e os temores que então se viviam, por se desconhecer o que para lá do cabo se encontrava

O nosso grande Camões escreveria a propósito: “ Quem quiser passar pelo Bojador tem que passar para além da dor.”

O seu clima com verões longos e quentes, invernos amenos e curtos, com chuvas concentradas mais no Outono e Inverno, reduzindo assim o numero anual de dias chuvosos e simultaneamente aumentar o numero de horas de Sol por ano é um oásis para os muitos turistas que são sempre bem-vindos.

Esta receita, dádiva da Natureza, é particularmente apreciada pelos turistas sedentos de Sol, tais como todos os Nórdicos, os Alemães, Holandeses, Belgas, Ingleses e outros, que nos procuram no Inverno, sobretudo os reformados, e o passam cá por ser mais ameno, luminoso e menos frio.

Esse mesmo Sol que aquece e bronzeia os corpos elegantes e branquinhos dos Nórdicos, Belgas e Ingleses também serve para dar um sabor mais doce aos seus frutos pelo que os figos, pêssegos, uvas, amêndoas, alfarroba, medronho e as famosas laranjas da baia, que são boas em qualquer lado do Mundo, aqui adquirem um sabor mais delicioso, requintado e suculento.

No concelho de Castro Marim haviam alguns pomares de laranjeiras dispersas por todo o lado, só que nos fins de Setembro já não havia laranjas em parte alguma.

Como não há regra sem excepção, existia um pequeno pomar na horta do senhor Esteves, que todos os anos guardava duas ou três laranjeiras, intocáveis, destinadas aos patrões, ninguém tinha ordens de lá mexer.

De dia ninguém se atrevia a lá ir; de noite muito menos, pois a propriedade era guardada por dois pastores alemães que metiam respeito a qualquer pessoa.

Mas, a sede de aventura própria de quem é jovem acrescida da vontade de as comer, pois gozavam da fama de serem as melhores da região, não intimidaram dois amigos que pensaram arriscar a pele a favor do estômago e combinaram uma noite fazer o desfalque às laranjas do Esteves.

Com o decorrer dos dias iam vigiando o laranjal e quando acharam que as laranjas estavam com cor de maduras e aspecto de docinhas, nessa noite pegaram num saco, tinha que ser um saco, porque arriscar a pele por duas ou três laranjas não valia a pena, e lá vão eles pela calada da noite, por volta da uma da madrugada, de saco às costas e também a sede de aventura e a gulodice de laranjas.

Entraram pelo lado mais distante do monte, aproveitando um rombo no velho muro de pedra e de pé ante pé, para não alertar os cães, lá vão eles á procura das laranjeiras.

A noite estava escura, pelo que não era nada fácil encontrar uma laranjeira, quanto mais laranjas…, o tempo ia passando e laranjas nada… o medo dos cães apoderava-se e apavorava-nos cada vez mais e quando já amedrontados e meio desesperados queríamos desistir e mandar as laranjas às urtigas, aparece uma laranjeira.

-“ Olha aqui está uma… e carregadinha… abre-se o saco e “pimba” toca a enchê-lo cautelosamente.”

Só que ainda o saco não estava cheio e os cães dão sinal de alerta.

Há que dar corda aos sapatos e pernas para que vos quero… há que fugir.

Ultrapassado o muro para o lado de fora da propriedade parecia estar resolvida a contenda homem/cão, mas era mentira, um dos cães salta o muro e continua o desafio, a sorte foi as laranjas do saco que serviram de arma de arremesso.

Iamos lançando laranjas e recuando serra acima até que o cão desistiu e nós ficamos aliviadíssimos e podíamos finalmente provar as deliciosas laranjas.

Nunca nos tinha passado pela cabeça que também há laranjeiras bravas… azar… eram amargas como o fel, uma das poucas laranjeiras amargas que havia no pomar foi a que nos tocou!..

-“ E agora o que é que fazemos a isto”?

-“ Olha…vamos fazer tiro ao alvo, vês ali aqueles pinheiros.”?

E assim ficou aquele pinhal semeado de laranjas.

No dia seguinte soube-se que pinheiros tinham dado laranjas e comentava-se:

Quem teriam sido os “bravos” que carregaram mais de uma centena de laranjas para semearem no pinhal.

E muita sorte tiveram não terem ficado com as calças rotas!..

Ainda hoje quando como laranjas sinto aquele gosto amargo do fel, das laranjas que apesar de Algarvias não deviam ser das genuínas, da baia e não devem ter apanhado banhos daquele Sol brilhante e quente que só o Algarve oferece.



Venâncio Rosa

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