SILVA LOPES PAI E FILHO
No ano de 1957 assentou praça na Armada um rapazinho da província de nome José da Silva Lopes; trazia na sua bagagem a modesta quarta classe da instrução primária e muita vontade de não voltar ao trabalho agrícola que tinha deixado na sua terra.
Dedicou-se inteiramente á aprendizagem da arte Marinheira e foi tirando aproveitamento regular em todos os cursos que lhe proporcionavam, chegando a atingir o posto de primeiro-sargento.
Os tempos não param, a vida percorre o seu ciclo natural e o herói da nossa história não fugindo á regra, entra na rotina da natureza, casa-se e desse casamento nasce um rapaz que foi baptizado com o nome de António Silva Lopes.
Decorriam os anos sessenta, e entre muitas…muitas…muitas coisas, aconteceu:
O Benfica conquista em Berna a taça dos campeões europeus de futebol, ganhando ao Barcelona por 3-2.
Iniciam-se as guerras de guerrilha em Angola, Guiné e Moçambique.
É inaugurada a ponte Salazar.
Chuvas torrenciais e diluvianas, provocam inundações nas margens dos rios, roubando a vida a pelo menos 367 pessoas.
Salazar cai da cadeira e é substituído no governo por Marcelo Caetano.
No dia do estudante, acções de protesto nas Universidades de Lisboa, Coimbra e Porto são reprimidas pela polícia com violência.
Com a designação popular de Magriços, a equipa nacional de futebol realiza a maior proeza de sempre, ao chegar à fase final do Campeonato do Mundo, disputado em Inglaterra, classificando-se em terceiro lugar.
O cinquentenário das aparições de Fátima é assinalado com a peregrinação ao Santuário do Papa PauloVI.
O guerrilheiro Argentino Ernesto « Che Guevara, herói da revolução Cubana, é morto na Bolívia, no decurso de uma acção de guerrilha.
Nessa Época os tempos eram difíceis, os vencimentos eram curtos para as despesas do casal e educar um filho o melhor possível, não era tarefa fácil, mas, apesar das adversidades, conseguiram financiar as despesas da Universidade, e mais tarde da Escola Naval, onde se formou Oficial de Marinha, com distinção.
Mas, do nada vem nada, e para este milagre acontecer, estes exemplares pais tiveram que comer o pão que o diabo amassou.
Como é sabido, os pais fazem os possíveis e quantas vezes os impossíveis para dar o melhor aos seus meninos, e este marinheiro teve que fazer como a maioria dos seus colegas faziam, na tentativa de esticar o magro ordenado que ganhava e a receita era:
Não jantava na Unidade e por isso tinha direito a trazer consigo o “desabono” que era a marmita da sopa, um bocado de carne a que chamavam bife, ou a posta de bacalhau ou de peixe e a bucha de pão.
De quando em quando lá vinha também um pouco de feijão seco, grão, arroz ou massa.
Para os pobres, esta era a única maneira sustentável de poder ter um filho a estudar.
Apesar do exposto, sempre ouvi dizer que a Marinha era uma “uma grande casa”.
Na altura, a mobília de cada marinheiro resumia-se a dois sacos de lona onde guardavam e transportavam, num o fardamento e no outro os restantes haveres tais como: a “palamenta” que eram o prato de alumínio e o copo do mesmo metal, o talher e os artigos de higiene pessoal, os livros, cadernos e apontamentos dos cursos frequentados.
Da mobília fazia ainda parte a cama e respectivo colchão, dois sacos de tecido cinzento (para não se notar tanto a sujidade) e que eram tidos como lençóis, visto serem para enfiar no colchão e ainda uma lona suficientemente forte onde eram embrulhados todos os dias os utensílios de dormir.
Fazia ainda parte da mobília um travesseiro e duas mantas.
Quando se mudava de Unidade, o chamado “destacamento” tinha que se carregar às costas toda aquela tralha que pesava que se fartava…
Mas, voltemos a falar da formatura do filho do nosso Sargento, pois ele é uma das principais figuras do nosso conto.
Nesta fase o Pai sentia-se e com razão, todo orgulhoso de ter conseguido dar ao filho aquilo que os seus próprios pais não lhe puderam dar.
O seu ilustre filho havia concluído com distinção o seu curso de Oficial da Marinha de Guerra Portuguesa.
Assim, pai e filho serviam a nossa Armada nas guerras de África, nas suas missões de patrulhamento ao longo da costa Portuguesa, sempre em diferentes navios, corvetas, fragatas ou vasos de guerra, até que um dia o destino juntou pai e filho na mesma fragata a “Sacadura Cabral” e calhou o filho ser o Oficial superior do pai, visto ambos terem a mesma especialidade.
Nos primeiros tempos não sucedeu nada de anormal, mas era notório que o filho queria separar as águas, mantendo uma distância hierárquica, a mesma que vai de Sargento a Oficial.
E, um dia entraram em conflito, já não sei bem porquê, mas o que é certo é que transportaram o desacordo para casa e na hora do jantar, o pai teve que se impor e dizer que quem ainda mandava em casa era ele.
O filho que também era rijo, retorquiu:
-“Mas a bordo da fragata mando eu”.
A discussão foi aumentando de volume, como as bolas de neve quando descem os Alpes Suíços e aqueceu de tal modo que o pai chegou ao cúmulo de, pela primeira vez na sua vida, dar dois estalos na cara do filho, provocando com este acto um pequeno ferimento num dos lábios.
Esta cena foi certamente muito difícil para ambas as partes e para os demais que a presenciaram, mas com o passar dos minutos lá foi serenando mais e mais, com o filho a afastar-se para o seu quarto onde redigiu uma participação contra o pai e que no dia seguinte entregou no Comando da Fragata.
A participação ia atestada com dois pingos de sangue, ali postos propositadamente, para servir e dar mais gravidade e testemunho ao acto.
Nesse mesmo dia a seguir ao almoço, e depois do Comandante da Fragata ter analisado o processo, chamou ao seu comando o Sargento Silva Lopes.
-“Então Sargento… conte-me lá o que é que se passou ontem”.
-“Não se passou nada senhor comandante”.
-“Mas o senhor Tenente Silva Lopes tem aqui uma participação a dizer que o Sargento lhe bateu”.
-“Eu não bati no senhor Tenente. O senhor Tenente estava pendurado no cabide”.
-“Eu bati no meu filho e mereço ser castigado, não por esse acto, mas pelo facto de não ter sabido dar-lhe a devida educação”.
Passaram os dias, os meses, os anos e da participação do Tenente Silva Lopes contra o sargento Silva Lopes nada mais se soube, deve ter sido arquivada na 6ª Secção que é como quem diz, cesto dos papéis.
Ora vá lá um pai sacrificar-se por um filho deste calibre.
Aqui vai a minha continência ao sargento Silva Lopes.
Venâncio Rosa

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