NÃO CORTE NA CASACA DA VIZINHA
Os bailaricos de aldeia nas décadas de 50/60 tinham algo de relevante, eram realizados num salão simples, não muito grande, enfim, era o que se podia arranjar na época.
Nesse salão rectangular eram colocados bancos corridos junto às paredes onde se sentavam as senhoras mais velhas, as mães das protagonistas do evento, que por falta de lugares sentados, nos intervalos de cada moda, normalmente se sentavam ao colo das mães.
A música era tocada normalmente por um acordeonista que se sentava num palanque mais elevado, de modo a ser visto por toda a plateia.
Para as senhoras havia entrada livre e gratuita, entretanto os cavalheiros pagavam 5$00 para entrar no recinto do baile.
Os juniores pagavam conforme os tostões que tinham no bolso (entre 1$50 e 3$00), também de acordo com a idade.
É bom recordar, que nessa altura um trabalhador rural ganhava 12$00 a 13$00 por dia de trabalho.
Os músicos eram pagos segundo as suas credenciais, entre 80$00 a 100$00, para actuar entre as 22 horas e as 2 da madrugada e tinha direito ao jantar.
Entre duas músicas havia sempre um pequeno intervalo para retemperar forças e então aconteciam duas coisas:
Os homens apinhavam-se no bar para refrescarem as gargantas ressequidas.
As senhoras iam dando que fazer á língua e não raras vezes a cortar na casaca das vizinhas.
-“Olha aquela isto…olha aquela aquilo…traz sempre o mesmo vestido…olha a gorda não larga o rapaz…que grande pisadela que aquela levou… etc., etc.
Eu que tinha por costume, de vez em quando e quando havia espaço sentava-me no meio das “velhas” para apreciar aqueles diálogos.
Não contente com os comentários ouvidos, engendrei um plano para castigar as más-línguas.
Nas vésperas do baile arranjei um tubo de cana do qual fiz um género de frasco com uma rolhinha de cortiça e utilizei-o para encher de moscas de burro, que são diferentes das moscas comuns, pois são de carapaça mais dura, não esborracham á palmada, não picam, mas com as suas potentes ventosas agarram-se de tal forma que é difícil sacudi-las, provocando um verdadeiro desconforto quando estão bem agarradas.
O plano estava feito, o tubo estava cheio de moscas, tubo no bolso, vamos para o baile e agora era só esperar pela melhor oportunidade, que apareceu no intervalo do evento.
Descontraidamente vou sentar-me entre as mais antigas e quando as conversas estavam no auge, saco do canudo e sorrateiramente despejo-o por debaixo do banco onde se sentavam as citadas “tesourinhas”, naturalmente, já a cortar nas casacas das vizinhas
As moscas desorientadas espalham-se cada uma por seu lado, subindo pelas pernas das senhoras que de aflição começaram a correr para a rua levantando as saias e sacudindo-as.
Foi um espectáculo hilariante, com o resultado negativo de que não houve “velha” que resistisse a ficar no baile, que acabou pouco tempo depois.
Só ficaram os homens que comentavam:
-“ De quem seria a ideia?”
-“Mas que foi boa lá isso foi.”
Quem não gostou muito da brincadeira foi o organizador do baile que nessa noite não teve a oportunidade para fazer a dança da tablete, que como mandava a tradição dizia o seguinte:
O organizador do baile, enquanto se dançava, percorria a sala com uma caixa de tabletes de chocolate e os cavalheiros tinham a obrigação moral de oferecer uma tablete á sua dama e que custava 1$20.
Como não se sabia qual era a dança premiada com o chocolate, quem já não tinha dinheiro não arriscava ir dançar, para não ficar envergonhado.
Assim, a organização perdeu a oportunidade de fazer mais alguns tostões no lucro dos chocolates, mas é assim a vida…
E, ás duas horas da madrugada acabou-se o bailarico porque a G.N.R. está atenta e o horário é para se cumprir, nem mais um minuto, não importa que horas antes tenham estado a comer e a beber á conta do patrão, horário é para se cumprir, nem mais um minuto.
BOA NOITE, BONS BAILARICOS, DIVIRTAM-SE, SEJAM FELIZES E ATÉ Á PRÓXIMA.
.
Venâncio Rosa
Os bailaricos de aldeia nas décadas de 50/60 tinham algo de relevante, eram realizados num salão simples, não muito grande, enfim, era o que se podia arranjar na época.
Nesse salão rectangular eram colocados bancos corridos junto às paredes onde se sentavam as senhoras mais velhas, as mães das protagonistas do evento, que por falta de lugares sentados, nos intervalos de cada moda, normalmente se sentavam ao colo das mães.
A música era tocada normalmente por um acordeonista que se sentava num palanque mais elevado, de modo a ser visto por toda a plateia.
Para as senhoras havia entrada livre e gratuita, entretanto os cavalheiros pagavam 5$00 para entrar no recinto do baile.
Os juniores pagavam conforme os tostões que tinham no bolso (entre 1$50 e 3$00), também de acordo com a idade.
É bom recordar, que nessa altura um trabalhador rural ganhava 12$00 a 13$00 por dia de trabalho.
Os músicos eram pagos segundo as suas credenciais, entre 80$00 a 100$00, para actuar entre as 22 horas e as 2 da madrugada e tinha direito ao jantar.
Entre duas músicas havia sempre um pequeno intervalo para retemperar forças e então aconteciam duas coisas:
Os homens apinhavam-se no bar para refrescarem as gargantas ressequidas.
As senhoras iam dando que fazer á língua e não raras vezes a cortar na casaca das vizinhas.
-“Olha aquela isto…olha aquela aquilo…traz sempre o mesmo vestido…olha a gorda não larga o rapaz…que grande pisadela que aquela levou… etc., etc.
Eu que tinha por costume, de vez em quando e quando havia espaço sentava-me no meio das “velhas” para apreciar aqueles diálogos.
Não contente com os comentários ouvidos, engendrei um plano para castigar as más-línguas.
Nas vésperas do baile arranjei um tubo de cana do qual fiz um género de frasco com uma rolhinha de cortiça e utilizei-o para encher de moscas de burro, que são diferentes das moscas comuns, pois são de carapaça mais dura, não esborracham á palmada, não picam, mas com as suas potentes ventosas agarram-se de tal forma que é difícil sacudi-las, provocando um verdadeiro desconforto quando estão bem agarradas.
O plano estava feito, o tubo estava cheio de moscas, tubo no bolso, vamos para o baile e agora era só esperar pela melhor oportunidade, que apareceu no intervalo do evento.
Descontraidamente vou sentar-me entre as mais antigas e quando as conversas estavam no auge, saco do canudo e sorrateiramente despejo-o por debaixo do banco onde se sentavam as citadas “tesourinhas”, naturalmente, já a cortar nas casacas das vizinhas
As moscas desorientadas espalham-se cada uma por seu lado, subindo pelas pernas das senhoras que de aflição começaram a correr para a rua levantando as saias e sacudindo-as.
Foi um espectáculo hilariante, com o resultado negativo de que não houve “velha” que resistisse a ficar no baile, que acabou pouco tempo depois.
Só ficaram os homens que comentavam:
-“ De quem seria a ideia?”
-“Mas que foi boa lá isso foi.”
Quem não gostou muito da brincadeira foi o organizador do baile que nessa noite não teve a oportunidade para fazer a dança da tablete, que como mandava a tradição dizia o seguinte:
O organizador do baile, enquanto se dançava, percorria a sala com uma caixa de tabletes de chocolate e os cavalheiros tinham a obrigação moral de oferecer uma tablete á sua dama e que custava 1$20.
Como não se sabia qual era a dança premiada com o chocolate, quem já não tinha dinheiro não arriscava ir dançar, para não ficar envergonhado.
Assim, a organização perdeu a oportunidade de fazer mais alguns tostões no lucro dos chocolates, mas é assim a vida…
E, ás duas horas da madrugada acabou-se o bailarico porque a G.N.R. está atenta e o horário é para se cumprir, nem mais um minuto, não importa que horas antes tenham estado a comer e a beber á conta do patrão, horário é para se cumprir, nem mais um minuto.
BOA NOITE, BONS BAILARICOS, DIVIRTAM-SE, SEJAM FELIZES E ATÉ Á PRÓXIMA.
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Venâncio Rosa

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