SETE MESES NOS AÇORES AO SERVIÇO DA MARINHA DE GUERRA PORTUGUESA


Depois de ter assentado praça em Vila Franca de Xira na escola de alunos Marinheiros, onde cumpri os três meses de recruta, tendo efectuado os testes de aptidão profissional e de seguida destacado para a escola de mecânicos, onde cumpri com aproveitamento o curso de escriturário no grau de I.T.E. (Instrução Técnica Elementar), findo o qual fui destacado para o Navio Patrulha S. Nicolau, atracado na Base Naval do Alfeite, que dentro de dias seguiria viagem para uma comissão de serviço de seis meses no Arquipélago dos Açores.

Numa linda tarde dos fins de Abril, lá nos fizemos ao mar rumo á Madeira, seguindo depois para os Açores.

A uma hora da saída da barra ia eu sentado no tolda (parte de trás do navio) a fumar o meu cigarrito quando passa um marinheiro mais antigo e vendo que eu fumava diz:

-“Você é dos fortes, aí a fumar que nem um gigante dos mares!..”

Mas eu não percebi o porquê de ser forte; só depois cheguei a saber que só os fortes é que não enjoam e conseguem fumar a navegar.

Passado pouco tempo passa um camarada de armas a fugir para a borda e”pimba”, vá de dar de comer aos peixinhos, vomitou o que tinha almoçado horas antes.

A partir daí começa-me a crescer água na boca e eu a cuspir até que “pimba,” almoço aos peixinhos.

Dai até à chegada á Madeira no dia seguinte, fui á borda mais de cinquenta vezes, já não tinha mais que dar aos peixinhos, dava-lhes a descarga da bílis que me deixavam o estômago destroçado.

Ao anoitecer do dia seguinte avista-se ao largo e em frente um autêntico presépio, uma montanha escura toda cheia de pontos luminosos, acendiam-se uns apagavam-se outros, um consolo para os nossos olhos e um desejo imenso de lá chegar, o que aconteceu passado hora e meia.

Atracamos ao cais e toca a recolher que já era tarde.

No dia seguinte, após a faina dos serviços, há licença para ir a terra, só ficou no Navio a “flausina,” que era a cadela mascote e o pessoal que se encontrava em escala de serviço.

Não se pôde passear muito, porque o dinheiro no bolso eram 7$50, que deu para dois cálices de vinho da Madeira e ainda sobraram 3$50, para gastar nos Açores.

Aí já não enjoei porque apanhamos mar picado, enquanto na viagem Lisboa/Madeira tínhamos apanhado a “vaga-morta” que fazia do navio uma casca de noz, muito propício a enjoos.

À chegada a Ponta Delgada, tínhamos uma legião de raparigas Açorianas a passear na muralha, à espera que os marinheiros saíssem de licença, para tentarem arranjar os seus namoricos, pois o desejo de quase todas era arranjar um elo de ligação que as trouxesse ao Continente, e algumas conseguiram-no.

Passava-se o tempo na rotina dos dias sempre iguais, até que o Comando do Navio organiza uma excursão de “volta à Ilha.”

Fomos conhecer a deslumbrante Lagoa das sete Cidades, cenário de beleza natural criada pela Mãe Natureza.

Daí fomos para a encosta Norte onde se situa a Cidade de Ribeira Grande, famosa pelos seus passarinhos fritos.

Continuamos a viagem passando por vilas e povoações, sempre acarinhados por aquelas gentes tão simples, simpáticas e servis, como só nos Açores existe.

Depois de cumprido o simpático passeio houve o regresso a bordo para recuperar forças.

Entretanto há uma visita do Presidente da Republica, na altura o Almirante Costa Gomes e nós tivemos que dar cobertura na visita ao Arquipélago.

Na viagem entre Ilhas fomos á Ilha de Santa Maria onde desfrutamos dois dias de praia de areia branca.

Depois avançamos para a Ilha Terceira e fundeamos ao largo de Angra do Heroísmo por não haver cais de atracação.

Acontece porém que noite dentro levanta-se um temporal, e às quatro da manhã fomos acordados para a faina, pois já o ferro ia ágarra e o navio deslocava-se perigosamente para as rochas.

Levantamos ferro e aproamos ao temporal que fazia do navio o seu brinquedo, pois dava saltos, qual macaco em plena floresta do Amazonas.

Pelas dez horas da manhã o tempo amainou e nós podemos rumar á Praia da Vitória. Era o dia da sua festa anual com as suas loucas touradas, que era basicamente, uma vaca brava presa a uma corda na praia. Num dos cornos tem uma fita presa e quem conseguir tirar a fita ganha um prémio.

Assim, a rapaziada nova é posta à prova e de vez em quando há um que fica com as calças rasgadas, outros que são obrigados a tomar banhos forçados e assim se vão divertindo e proporcionado gargalhadas aos mais velhos, que já não têm pernas para estas aventuras, mas aplaudem, sinonimo de que se estão a divertir.

Outros festivaleiros preferem andar de café em café ou de bar em bar derrubando umas “beears” fresquinhas.

Um camarada meu que fez amizade com uns Kamones da base das Lages, já estava num estado lastimável quando o encontramos.

Havia que o levar para o Navio, só que este estava fundeado ao largo e era preciso apanhar a lancha que fazia o transbordo do pessoal.

Conseguimos metê-lo na lancha, mas foram três num trambolhão parar lá dentro, mas como ”ao menino e ao borracho Deus lhe põe a mão por baixo”, ninguém se magoou.

Só que o pior estava para vir, que era a viagem da lancha para o Navio; tinha que se subir a escada de quebra-costas (é uma escada de corda com degraus de madeira) que foi tentado várias vezes mas sem êxito, até que do Navio mandaram uma corda que lhe atamos á cintura e assim foi puxado para o Navio.

Metido na cama, dormiu que nem um imaculado Anjinho do Céu!..

No dia seguinte quando acordou ao levantar-se deu um trambolhão tão grande que foi parar debaixo da cama do camarada da frente. Estava mais bêbado que no dia anterior.

Ajudado a levantar-se foi metido debaixo do chuveiro e um bom banho de água fria retemperou-lhe as ideias, só que não se recordava nada do dia anterior.

Na tarde desse dia levantámos ferro e rumámos à Ilha do Faial onde o Senhor Presidente da Republica, Almirante Costa Gomes, ia fazer a sua aparição.

Ao passarmos pelo canal de S. Jorge, que fica entre a Ilha de S. Jorge e a Ilha do Pico, não bastando as correntes malucas que se fazem nesse canal, levantou-se mais um temporal que metia o Navio quase todo debaixo de água, andávamos três milhas (medida náutica) para a frente, duas e meia para trás, mas com a insistência lá conseguimos chegar à Cidade da Horta.

Cumprimos o protocolo estabelecido pela agenda da visita do Presidente da Republica Portuguesa e regressámos a Ponta Delgada, onde tinhamos a base de apoio logístico do Navio.

Passado algum tempo temos outro passeio, desta vez às Furnas, fenómeno natural criado pelos antigos vulcões que ainda fumegam por tudo quanto é sítio.

É um espectáculo deslumbrante aquelas bolsas a fervilhar (água, lama e fumo) onde se faz o cozido das Furnas, tal como nós fizemos.

Já levávamos o tacho com o cozido preparado, enfiado numa saca serapilheira, foi só enfiá-lo dentro da caldeira e passadas três horas retirá-lo que já estava pronto.

Prato numa mão, garfo na outra e toca a saciar o estômago que já reclamava alimento.

Entretanto outro cenário digno de registo, eram os miúdos, que para angariarem uns tostões andavam de copo na mão a ensinar-nos onde é que estavam as bicas de água de vários sabores, cheiros e temperaturas.

De salientar que numa arriba e numa distância curta de metro e meio haviam três bicas em que uma deitava água fresquíssima, outra tépida e outra a ferver, fantásticas as surpresas que a Mãe Natureza tem para nos oferecer e surpreender também.

De seguida fomos visitar as estufas de ananases situados na Fajã de Baixo e Fajã de Cima o que também é muito interessante de ver.

Cumprida a visita foi o regresso a bordo que já eram boas horas para o fazer.

Já se falava no regresso a Lisboa, quando não sei a que pretexto tive necessidade de tirar umas fotografias e procurei um fotógrafo que encontrei no centro da Cidade.

Fui atendido por uma simpática assistente que me encaminhou à sala onde fui fotografado, depois abri a ficha, paguei e fui recomendado voltar três dias depois para levantar as fotos.

Assim foi feito e quando lá volto diz-me a simpática assistente:

-“Vem buscar as suas fotografias senhor Venâncio”?

-“Veja lá se gosta, e mostra-me um postal de oferta onde estava a minha cara com uma bonita “pêra” pintada no queixo.”

-Ah… desculpe, mas não são estas fotografias.”

-“Não, são estas fotografias? São estas sim senhor”!..

-“Sabe…a pêra no queixo fui eu que a pintei e fica-lhe muito bem, posso ficar com ela para mim?..

-“Só se receber alguma coisa em troca!..

-De imediato sai do guichet, vem cá fora e dá-me um beijo na face.

-“Está paga”?

-“Não vou lavar esta face da cara durante muito tempo.”

Risos, e de imediato combinamos encontrarmo-nos à saída.

Fui acompanhá-la até perto de casa; havia magia no ar, o Mundo era colorido das mais lindas cores, o coração estava livre e desejoso de ser ocupado, e no dia seguinte repetimos a dose mas já de mão dada; entretanto o cupido faz dos seus milagres e ao terceiro dia já iamos às beijocas e abraçadinhos como dois pombinhos apaixonados.

Num desses dias o tema da conversa foi a minha Deolinda (era o seu nome) contar-me a vida íntima duma sua amiga Zulmira, contou-me episódios da sua vida a quem mais ninguém tinha acesso.

Disse-me também onde a amiga trabalhava (numa loja de electrodomésticos na rua x) e que era muito bonita.

No dia seguinte confirmei.

Na posse de todo este rol de informações imaginei:

Está aqui um campo fértil para um ensaio de vidente tipo Zandinga.

Convidei um camarada de armas, não fosse a vidência dar para o torto… e lá fomos á procura da rua x.

Procura a rua, encontra a rua, procura a loja, encontra a loja, espreita através da montra e lá está a beldade.

Era de facto uma moça muito bonita, ruiva, cabelo cor de mel, olhos azuis, pele aloirada semeada com algumas sardas que lhe elevavam a beleza e tinha um corpinho também torneado que parecia feito de encomenda, era uma bonequinha feita á máquina e pintada á mão.

Entramos na lojinha fingindo interesse num aparelho de rádio.

-“ A Zulmira: Em que posso ajudar”?

-“ Era aqui… e fitando-a nos olhos digo: Conheço-a de qualquer lado.”

O bruto do meu colega: - “Só se for do lado esquerdo.”

-“Não sei… nunca saí da Ilha.”

“-Mas estou vendo que vontade não lhe faltou.”

-“Porque o seu maior desejo é sair daqui e segundo leio nos seus olhos já teve planos para isso.”

-“Como é que você sabe”?

-“Sou vidente e agora estou a ver que você tem um nome bonito mas pouco vulgar, não consigo ver bem mas começa por um Z.”

-“Sou Zulmira.”

“Então em parte acertei.”

-“Isso ainda não me diz nada.”

-Agora estou a vê-la numa festa do Senhor Santo Cristo, onde lhe faz uma promessa com intenção de sair da Ilha.”

-“Bem isso já é mais sério.”

- “O que quer dizer… um grande navio mercante que estou vendo?”

-“Se você sabe tudo porque me pergunta.”

-“Diga-me só como se chamava o marinheiro por quem você se apaixonou e fez planos para que ele a embarcasse clandestinamente?”

-“O nome dele começa por A, mas creio não ser António.”

-“È Antero, mas eu não quero falar mais nisso.”

-“Agora vejo o navio a afastar-se e você está no cais lavada em lágrimas.”

-“Isso aconteceu?”

-“Esta tudo certo, mas não me perturbe mais, são horas de fechar a loja.

-“Então até um dia destes.”

-“Apareça quando quiser.”

Só que três dias depois partimos rumo a Lisboa.

Não sei se a boa da Zulmira chegou a descobrir que tinha sido a Deolinda que tudo me tinha contado e que o vidente era um tagarela da treta!..

Três dias depois já estávamos com os pés na Base Naval do Alfeite, mas ainda hoje recordo com muita saudade todas estas passagens, tenho grande admiração pelo povo Açoriano e sou um admirador muito grande das suas lindas paisagens.





Venâncio Rosa

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