A FEIRA
( O HOMEM DO BURRO E O BURRO DO HOMEM )
No Concelho de Castro Marim existe um monte chamado “Cerro da Cobra.”
Conta-se que existiu em tempos idos, por lá uma enorme cobra que ia às galinhas, matava-as e comia-lhes os ovos.
Não sei se o citado Cerro da Cobra ainda é habitado, mas nos anos cinquenta moravam lá duas famílias, a saber:
A minha tia Maria e o meu tio Manuel Melão e a D. Joaquina e o seu marido, o senhor Freitas que era um bocadinho anormal.
Ali viviam eles, longe do mundo moderno, no mais pacato dos silêncios, tendo por companhia o chilrear dos passarinhos que voavam livremente por aquele lindo céu azul algarvio, alguns animais domésticos como coelhos galinhas e patos que bicavam todo o longo dia, pelos férteis terrenos, na busca de uns grãos que lhe servissem de alimento e lhe enchessem o papo.
Tinham igualmente uma burrica que os ajudava nas lides domésticas, como por exemplo ir buscar água ao poço que ainda ficava distante, ou levar a semente do trigo ao moinho de vento, depois ir buscar a farinha, carregar batatas, ir á vila com uma pequena carga de ovos que depois eram vendidos e outras tarefas dignas de uma burrica mimada e bem tratada.
O casal Joaquina/Freitas viviam com o que colhiam das suas sementeiras.
As datas festivas eram comemoradas por exemplo com um coelhito no Carnaval, uma galinha na Páscoa ou em datas de aniversários, porque os tempos eram de privações.
Engordavam um porco que lhes dava carne para todo o ano e em anos de engordar dois, vendiam um e esse dinheiro dava depois para comprar algum açúcar, café, arroz, massa e mais qualquer coisa que fosse necessário.
Todo o resto da sua alimentação era produzido nas suas terras.
Era uma alimentação rudimentar, mas tinha a grandeza de ser biológica.
E, num lindo dia de primavera sucede que a burrica ficou com o cio e a D. Joaquina, que devido a anomalia do marido era quem administrava a casa, teve a ideia e pergunta ao marido:
-“ Olha lá Freitas, devíamos levar a burrica ao burro, se vier um burrico poderá dar jeito.”
E assim foi feito, numa manhã linda de sol, o Sr. Freitas leva a burrica ao burro do vizinho e desse breve romance entre burricos resultou que passado um ano nasce um lindo burriquito de cor preta, que era a alegria do casal e uma fotocópia do Pai.
O tempo foi decorrendo como decorre o tempo, os dias sucedem-se uns aos outros, a vida passa, ficamos mais velhos e o nosso burriquito preto não foge a essa regra milenar e entretanto já está adolescente, ocasião propícia para a D. Joaquina, que como sabemos é quem gere a casa, propor ao marido que vá á feira anual de S. Bartolomeu vender o burrico que na altura já só lhe estava a dar despesa, mas não se esqueceu de recomendar bem recomendado que não vendesse o burro a ciganos porque certamente seria enganado.
E, assim foi, no dia 16 de Setembro lá vai o pobre do Sr. Freitas com o seu burrico à feira de S. Bartolomeu que era à época uma grande feira.
Lá se vendia de tudo, desde gado suíno, caprino, ovino, utensílios agrícolas, potes e canecos, dornas e tonéis, cestos de verga, regadores, tesouras para a poda, albardas, arreios, chocalhos grandes e pequenos, guizos, melões, melancias e outra fruta da época, bolos, comes e bebes e tudo o mais que se possam imaginar e se vende nas feiras.
Havia carrosséis para todos os gostos, circo, poço da morte, fantoches e robertos (o Roberto e a Joana) tendas de quinquilharias, barracas de diversão com vários temas, tendas e o obrigatório fotografo à-la-minute.
Ainda recordo com nostalgia dois dos pregões mais ouvidos na feira e que eram:
“ Olha o rajá fresquinho” (era o gelado da época) e,
“ Água fresquinha regalada, cinco tostões uma barrigada.”
É que na época não havia água canalizada e, a que se consumia era dos poços e com o calor de Setembro fazia sede quanto basta, havia indivíduos que aproveitavam o dia da feira para ganhar uns trocados, vendendo a água que iam buscar gratuitamente aos poços.
De salientar que toda a gente bebia pelo mesmo púcaro, felizmente que não havia doenças transmissíveis como sucede nos dias de hoje.
Entretanto o nosso Amigo Freitas já vinha a caminho da feira com o seu burrico, onde chegou por volta das nove da manhâ e, naturalmente, é logo rodeado por ciganos.
- “ É para vender? Quanto quer pelo burro?
- “ É para vender mas não vendo a vocês.”
- “ Então porquê homem, o nosso dinheiro não presta?”
- “ Nã vendo, que vocês ainda…”
- “ Oh homem está com medo de quê”?
- “ Então deixe-me lá experimentá-lo!..”
-“ Não.”
- “ Oh homem tira-se a albarda e fica aqui que é para vossemecê não ter medo.”
O bom do Senhor Freitas lá concordou, mal sabia ele que nunca mais ia ver o seu burrico adolescente e preto, nem o malandro do cigano nem a cor do dinheiro.
Tira-se a albarda, o cigano monta-se no burro e lá vai ele até nunca mais ser visto.
O pobre Freitas espera, espera, espera e o cigano não volta, até que os outros ciganos começam a debandar e o pobrezito do Freitas ficou sozinho.
Espera, desespera até que ao fazer-se tarde o pobre do Senhor Freitas fica com a noção da realidade e disse:
“Tenho que me ir embora que já fui roubado pelo cigano.”
Pega na albarda, põe-na às costas e lá vai ele direitinho ao Cerro da Cobra que ainda dista uns doze quilómetros de S. Bartolomeu.
Por volta das dez horas da noite chega o pobre do Freitas a casa.
Quando a D. Joaquina o viu com a albarda às costas diz-lhe:
-“ Oh homem vendeste o burro porque não vendeste também a albarda”?
Ouvindo isto o senhor Freitas desata num choro convulsivo, o que deu para a D. Joaquina compreender que o seu homem tinha sido enganado, apesar das suas recomendações da véspera para ter cuidado com os ciganos.
É que o Senhor Freitas não tinha expediente para mais e lá passou por “burro” no negócio do burro.
Venâncio Rosa
( O HOMEM DO BURRO E O BURRO DO HOMEM )
No Concelho de Castro Marim existe um monte chamado “Cerro da Cobra.”
Conta-se que existiu em tempos idos, por lá uma enorme cobra que ia às galinhas, matava-as e comia-lhes os ovos.
Não sei se o citado Cerro da Cobra ainda é habitado, mas nos anos cinquenta moravam lá duas famílias, a saber:
A minha tia Maria e o meu tio Manuel Melão e a D. Joaquina e o seu marido, o senhor Freitas que era um bocadinho anormal.
Ali viviam eles, longe do mundo moderno, no mais pacato dos silêncios, tendo por companhia o chilrear dos passarinhos que voavam livremente por aquele lindo céu azul algarvio, alguns animais domésticos como coelhos galinhas e patos que bicavam todo o longo dia, pelos férteis terrenos, na busca de uns grãos que lhe servissem de alimento e lhe enchessem o papo.
Tinham igualmente uma burrica que os ajudava nas lides domésticas, como por exemplo ir buscar água ao poço que ainda ficava distante, ou levar a semente do trigo ao moinho de vento, depois ir buscar a farinha, carregar batatas, ir á vila com uma pequena carga de ovos que depois eram vendidos e outras tarefas dignas de uma burrica mimada e bem tratada.
O casal Joaquina/Freitas viviam com o que colhiam das suas sementeiras.
As datas festivas eram comemoradas por exemplo com um coelhito no Carnaval, uma galinha na Páscoa ou em datas de aniversários, porque os tempos eram de privações.
Engordavam um porco que lhes dava carne para todo o ano e em anos de engordar dois, vendiam um e esse dinheiro dava depois para comprar algum açúcar, café, arroz, massa e mais qualquer coisa que fosse necessário.
Todo o resto da sua alimentação era produzido nas suas terras.
Era uma alimentação rudimentar, mas tinha a grandeza de ser biológica.
E, num lindo dia de primavera sucede que a burrica ficou com o cio e a D. Joaquina, que devido a anomalia do marido era quem administrava a casa, teve a ideia e pergunta ao marido:
-“ Olha lá Freitas, devíamos levar a burrica ao burro, se vier um burrico poderá dar jeito.”
E assim foi feito, numa manhã linda de sol, o Sr. Freitas leva a burrica ao burro do vizinho e desse breve romance entre burricos resultou que passado um ano nasce um lindo burriquito de cor preta, que era a alegria do casal e uma fotocópia do Pai.
O tempo foi decorrendo como decorre o tempo, os dias sucedem-se uns aos outros, a vida passa, ficamos mais velhos e o nosso burriquito preto não foge a essa regra milenar e entretanto já está adolescente, ocasião propícia para a D. Joaquina, que como sabemos é quem gere a casa, propor ao marido que vá á feira anual de S. Bartolomeu vender o burrico que na altura já só lhe estava a dar despesa, mas não se esqueceu de recomendar bem recomendado que não vendesse o burro a ciganos porque certamente seria enganado.
E, assim foi, no dia 16 de Setembro lá vai o pobre do Sr. Freitas com o seu burrico à feira de S. Bartolomeu que era à época uma grande feira.
Lá se vendia de tudo, desde gado suíno, caprino, ovino, utensílios agrícolas, potes e canecos, dornas e tonéis, cestos de verga, regadores, tesouras para a poda, albardas, arreios, chocalhos grandes e pequenos, guizos, melões, melancias e outra fruta da época, bolos, comes e bebes e tudo o mais que se possam imaginar e se vende nas feiras.
Havia carrosséis para todos os gostos, circo, poço da morte, fantoches e robertos (o Roberto e a Joana) tendas de quinquilharias, barracas de diversão com vários temas, tendas e o obrigatório fotografo à-la-minute.
Ainda recordo com nostalgia dois dos pregões mais ouvidos na feira e que eram:
“ Olha o rajá fresquinho” (era o gelado da época) e,
“ Água fresquinha regalada, cinco tostões uma barrigada.”
É que na época não havia água canalizada e, a que se consumia era dos poços e com o calor de Setembro fazia sede quanto basta, havia indivíduos que aproveitavam o dia da feira para ganhar uns trocados, vendendo a água que iam buscar gratuitamente aos poços.
De salientar que toda a gente bebia pelo mesmo púcaro, felizmente que não havia doenças transmissíveis como sucede nos dias de hoje.
Entretanto o nosso Amigo Freitas já vinha a caminho da feira com o seu burrico, onde chegou por volta das nove da manhâ e, naturalmente, é logo rodeado por ciganos.
- “ É para vender? Quanto quer pelo burro?
- “ É para vender mas não vendo a vocês.”
- “ Então porquê homem, o nosso dinheiro não presta?”
- “ Nã vendo, que vocês ainda…”
- “ Oh homem está com medo de quê”?
- “ Então deixe-me lá experimentá-lo!..”
-“ Não.”
- “ Oh homem tira-se a albarda e fica aqui que é para vossemecê não ter medo.”
O bom do Senhor Freitas lá concordou, mal sabia ele que nunca mais ia ver o seu burrico adolescente e preto, nem o malandro do cigano nem a cor do dinheiro.
Tira-se a albarda, o cigano monta-se no burro e lá vai ele até nunca mais ser visto.
O pobre Freitas espera, espera, espera e o cigano não volta, até que os outros ciganos começam a debandar e o pobrezito do Freitas ficou sozinho.
Espera, desespera até que ao fazer-se tarde o pobre do Senhor Freitas fica com a noção da realidade e disse:
“Tenho que me ir embora que já fui roubado pelo cigano.”
Pega na albarda, põe-na às costas e lá vai ele direitinho ao Cerro da Cobra que ainda dista uns doze quilómetros de S. Bartolomeu.
Por volta das dez horas da noite chega o pobre do Freitas a casa.
Quando a D. Joaquina o viu com a albarda às costas diz-lhe:
-“ Oh homem vendeste o burro porque não vendeste também a albarda”?
Ouvindo isto o senhor Freitas desata num choro convulsivo, o que deu para a D. Joaquina compreender que o seu homem tinha sido enganado, apesar das suas recomendações da véspera para ter cuidado com os ciganos.
É que o Senhor Freitas não tinha expediente para mais e lá passou por “burro” no negócio do burro.
Venâncio Rosa
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