O MERCEEIRO...E O BURLÃO

Ao longo da minha vida de trabalho tive várias ocupações, entre as quais a de merceeiro durante uma boa dúzia de anos.

Em determinada altura, por volta do Natal, andava eu a pensar mandar imprimir o nome e o símbolo da casa, nos sacos de plástico, onde metemos as compras dos clientes, seria simultaneamente um miminho aos nossos clientes e uma forma de publicitar e dar a conhecer a nossa loja.

Um belo dia, apareceu-me na loja um vendedor de sacos de plástico ao preço da concorrência, e que para uma encomenda de 200 kg oferecia as gravuras.

Aceitei de imediato, formalizei e a pedido, sinalizei a encomenda com um cheque de 7.000$00 (sete mil escudos) que o bom do vendedor foi direitinho ao banco levantar.

Como o cheque era cruzado o banco não pagou sem a minha autorização, pelo que o vendedor convenceu o bancário a pedir-me, via telefone, autorização para o fazer, ao que eu anui, longe de imaginar que se estava no inicio de mais um “conto do vigário” que me iria dar muitas arrelias, despezas e perdas de tempo, que era aquilo que eu não tinha; eu não tinha tempo… nem para dormir!..

Tudo estava correcto, nota de encomenda timbrada com morada, número de contribuinte, telefone e tudo o mais, pelo que não havia nada que desse para desconfiar de que estávamos perante uma burlice.

E assim, ficamos eu e a minha Rosa todos vaidosos, não só á espera do Natal que se avizinhava lenta e inevitavelmente, mas também dos sacos de plástico todos bonitos, estampados com mil e um Pais Natais, a desejar “BOAS-FESTAS” e “FELIZ ANO NOVO“ aos nossos clientes, estampados com o nome da nossa lojinha, que nos ia encher de orgulho e fazer pensar que éramos uns comerciantes a sério e de sucesso.

Esperamos… esperamos… esperamos… passa-se uma semana, duas semanas, três semanas, passa-se um mês, chega o Natal, vem o Ano Novo e sacos de plástico nem vê-los.

Comentava eu para a minha cara-metade:

-“ Já fomos enganados com a encomenda dos sacos de plástico.”

-“É o Mundo que temos… não se pode confiar em ninguém…são mais os vigaristas do que as pessoas sérias…há que esquecer isto e seguir em frente, mas de futuro temos que estar atentos aos bem-falantes de fato e gravata que nos entram pela casa dentro a querer vender-nos coisas… deviam ter na testa uma tatuagem a dizer vigarista, assim toda a gente se punha a pau com ele e não enganava mais ninguém…anda uma pessoa a trabalhar doze horas por dia e às vezes mais, para depois ser burlado por estes cabrões.”

Cerca de seis meses mais tarde, já depois de ter digerido e esquecido este episódio e a revolta que nos causou, aparece-me uma intimação do tribunal de Coimbra para ser ouvido como testemunha.

Não sabendo do que se tratava telefonei para a secretaria do dito tribunal e lá me puseram mais ou menos ao corrente do assunto:

Que o tal vendedor de sacos de plástico tinha burlado quase meio mundo e perante a queixa apresentada por alguns dos enganados, o dito burlão foi apanhado e com ele os duplicados das notas de encomenda, entre as quais estava a minha.

Todos os nomes que constavam nas notas de encomenda foram constituídas testemunhas e intimadas a comparecer no referido tribunal no mesmo dia e à mesma hora, para serem ouvidas.

Eram mais de trezentas as convocatórias.

Há Juízes que despacham serviço, mas fazer mais de trezentas audições num só dia, mais concretamente, numa só tarde, é obra impossível, ou só possível na cabeça de alguém muito optimista ou sem as suas capacidades mentais a funcionar na perfeição, dir-se-ia que foi ordenado à boa maneira portuguesa, em cima do joelho, salve-se quem puder, depois logo se vê, enfim, o costume, sem o mínimo de respeito pelo cidadão.

E o resultado só poderia ser este:

Só apareceram metade dos intimados, mas mesmo assim foram o suficiente para transformarem o Tribunal numa sala de loucos; o Juiz foi obrigado a adiar a audição e posteriormente dividir as audiências em pequenos grupos diários.

Tal como muitos o fizeram, eu também recorri ao atestado médico para justificar a minha falta de comparência, só que atrasei-me e enviei a justificação em cima do prazo limite, que aliás desconhecia ser de cinco dias.

Poucos dias depois recebo um aviso para pagar 10.000$00 (dez mil escudos) por falta de justificação.

Telefonei para a secretaria do Tribunal e foi-me dito que ninguém encontrou a justificação, apesar de eu insistir que a tinha enviado e tinha em meu poder o aviso de recepção justificativo e assinado por alguém do tribunal.

Do tribunal perguntavam-me:

-“ E qual é a data? “

-“ Tantos do tantos, respondia eu. “

Resposta pronta do outro lado do fio telefónico:

-“ Tem que pagar, chegou umas horas atrasado. “

Ainda recorri ao Advogado da Associação de Comerciantes do Seixal, que se limitou a confirmar:

- “ Chegou de facto umas horas atrasado, há que pagar. “

Retorqui:

-“ E se os correios demoram oito dias a entregar a correspondência que culpa é que eu tenho disso? “

O Advogado:

-“A lei não diz para enviar pelo correio, pode entregar por mão própria, é mais seguro.”

-“ Ora vejam lá a teoria!

-“ Ir de Corroios a Coimbra entregar uma carta pessoalmente.”

Enviei o dinheiro e indaguei, agora vão-me intimar a comparecer outra vez, isto não tem jeito nenhum, ir daqui de Corroios para Coimbra, se o lesado sou eu e não pretendo nada desse vendedor que é também vigarista e cabrão.

O funcionário do tribunal:

- “ Mas não é preciso o Sr. vir cá, pode ser ouvido por carta rogatória no Tribunal da sua Comarca, só basta endereçar um requerimento ao Juiz do processo em Coimbra.

Tomei nota da minuta e enviei para lá o requerimento.

Passados dois a três meses recebo uma convocatória do tribunal do Seixal, onde era pedida a minha presença e da minha mulher numa Sexta-Feira, o que me obrigava a fechar o estabelecimento, causando grande transtorno, sobretudo por não fazer negócio e pior ainda era os clientes encontrarem o estabelecimento encerrado.

Nessa Quarta-Feira resolvi ir á Makro de Palmela fazer compras e como passava perto do Seixal e do tribunal, resolvi passar pela secretaria do tribunal do Seixal e tentar mudar a data para Segunda-Feira.

Dito e feito e o simpático funcionário acrescentou:

-“ Você que está aqui é ouvido já e a sua esposa vem na Segunda-Feira. “

Contei a história, agradeci e fui ao trabalho, porque do nada vem nada e há que trabalhar para levar a vida direitinha e ter um pé de meia disponível para poder pagar episódios destes e outros que tais com que somos confrontados de vez em quando.

Nessa Segunda-Feira, logo de manhã tenho a G.N.R. à porta da loja a questionar-me se tinha faltado à intimação do tribunal?

Expliquei a situação e ficou tudo sanado com a presença da minha mulher na secretaria do tribunal, que pouco adiantou, pois não conhecia o caso em pormenor.

Questionei o funcionário do tribunal sobre a presença da G.N.R. no meu estabelecimento.

-“ Pediu-me imensas desculpas, mas tinha-se esquecido de alterar a datas.”

Semanas mais tarde sou novamente chamado a tribunal para ser ouvido por um Juiz em julgamento.

Com a convocatória na mão (2ª vara 4º juízo) bato á porta indicada e perguntei se era ali que tinha de me apresentar?

Fui corrido grosseiramente por um indivíduo que deveria ter outra sensibilidade para lidar com seres humanos.

Dirigi-me á secretaria onde me mandaram aguardar a chamada e quando sou chamado sou levado à (2ª vara 4ºjuizo) exactamente onde tinha estado momentos antes e dou de caras com a mesma personagem que me tinha corrido, incivilmente, momentos antes.O

Depois de já estar cheio de responder a perguntas sem nexo, retorqui:

- “Até parece que sou eu o vilão, quando sou o mais prejudicado, que sem culpa nenhuma, nem apresentar queixa e nada pedir a ninguém, já vou com mais de 30 contos gastos.”

Fui mandado calar de imediato… senão…

Foi-me nomeado no mesmo instante um advogado de defesa, que aliás já estava presente (um jovem recém-formado) que também recebeu uma admoestação do juiz por repetir uma pergunta que o próprio juiz já tinha feito.

Resumindo:

Para ficar ilibado fui obrigado a assinar um documento em que declarava prescindir de ser ressarcido dos prejuízos havidos.

Conclusão:

O burlão deu como fica provado, lucro ao Ministério Público a avaliar pelo meu caso.

10.000$00 (dez mil escudos) por cada burlado que não justificasse a sua ausência no processo é sempre dinheirinho bem-vindo aos cofres do Estado.

É assim que funcionam os nossos tribunais.

É assim que somos tratados por Senhores que deviam ser o exemplo elevado e primeiro de bem tratar o seu povo, sobretudo aquele que espera deles a mais elementar justiça e nunca o contrário, como foi, infelizmente, o meu caso.




                Venâncio Rosa

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