UMA VIAGEM A S. MACÁRIO
Por várias razões vale sempre a pena uma viagem ao monte de S. Macário e uma das principais é termos a oportunidade única de purificarmos os pulmões com o ar virgem e puro, perfumado e leve, oferta natural e grátis do maciço da serra da Gralheira.
Para iniciarmos a viagem a partir de S. Pedro do Sul tomamos a direcção de Sul, depois a de S. Macário, a estrada é boa, o acesso é fácil e em poucos minutos estamos lá em cima a mais de mil metros de altura.
Se iniciarmos a viagem a partir de Castro Daire ela é muito mais bonita e interessante, com paisagens, diria eu, em 5D.
Na dimensão superior predomina o maravilhoso Céu azul clarinho, lindo como só ele sabe sê-lo; na parte imediatamente inferior há um reflexo esbranquiçado a ocupar todo o horizonte.
A dimensão imediatamente abaixo é de um azul de vários tons, alternando mais escuros ou claros de acordo com os relevos e as elevações das serras e dos montes.
A 3D oferece-nos a paisagem da aba da serra com o seu imenso verde de diversas árvores com predominação do pinheiro que lhe dá um tom de verde-escuro que se enquadra lindamente neste quadro maravilhoso pintado pele Mãe natureza.
A 4D oferece-nos a contemplação do casario semeado no vale da serra que iluminado com o quente e brilhante Sol Beirão lhe dá um toque de verniz neste quadro serrano e perfeito.
Por fim na 5D vêem-se de novo imensos pinhais, mas agora muito mais pertinho de nós, quase que podemos tocar-lhe e levar uma pinha de recordação; são grandes, frondosos e verdinhos, respiram saúde por todas as suas agulhas, e convidam os passarinhos a nele fazerem os seus ninhos.
Lá mais ao fundo vê-se uma estreita e serpenteada estrada que dá acesso a um amontoado de casas, algumas típicas da região com paredes de pedras de xisto e telhados de ardósia e nos parecem saudar, dizendo:
“Estamos aqui, somos serranas e resistentes.”
O acesso por Arouca passando pelo”Portal do Inferno” é mais radical e de pôr os cabelos em pé de tanta adrenalina que se gasta nas emoções da viagem.
A estrada é de terra batida, não tem protecções laterais apesar de haver precipícios de ambos os lados, pelo que se houver nevoeiro é complicado e desaconselhado a amadores.
Lá do alto de mais de mil metros de altitude temos uma perspectiva envolvente como se fossemos uma águia-real ou um milhafre, pelo que as paisagens são em grande plano e estão ali á frente do nosso nariz, deslumbrantes, coloridas e a sensação que sentimos é um misto de poder, liberdade, deleite e gozo que gostaríamos de perpetuar infinitamente.
Foi este o cenário que S. Macário escolheu para remir o seu pecado, que segundo reza a lenda é mais ou menos assim:
O jovem Macário, filho de boas famílias, que por via do seu trabalho passava algum tempo ausente de casa, um dia ao regressar ao lar mais cedo do que era esperado encontrou um homem deitado na sua cama e julgando que a sua mulher o estava a trair, cego de ciúme, Macário matou o homem enquanto este dormia.
Acabado de assassinar o indefeso, Macário verificou que acabara de matar o seu próprio pai, que sua esposa tinha acolhido em sua casa durante a sua ausência e tinha disponibilizado o seu quarto por ser o melhor da casa.
Perante este drama Macário fugiu como louco, acabando por parar no maciço da serra da Gralheira, um lugar isolado e agreste onde só havia silêncio, solidão, miséria e pedras, muitas pedras, onde viveu uma vida de isolamento, penitencia, jejuns, orações e muitas privações.
Alimentava-se de raízes de tojos e outras plantas serranas que arrancava com as próprias mãos e bebia águas das chuvas que ficavam depositadas em poças lá pela serra.
Era uma sombra daquilo que fora no passado.
Macário vivia triste e infeliz, mas sem se sentir criminoso, sentia antes que estava a cumprir o destino que a vida lhe reservou.
Lutar contra o destino é um combate perdido, quem nasceu para morrer enforcado não vai morrer afogado.
Para minimizar o seu calvário ajoelhava-se no chão e de olhos e braços erguidos ao Céu rezava e clamava o perdão do Senhor, pelo seu pecado involuntário.
Com o passar dos tempos Macário habituou-se ao meio ambiente e passou a dominá-lo matando por exemplo uma cobra que se escondia numa gruta e espalhava o terror e a morte das gentes e animais da aldeia da Pena e Covas do Rio, cuja gruta a partir dai passou a ocupar fazendo dela a sua casa.
Este acontecimento foi amplamente divulgado e as populações agradecidas construíram no local uma Capela em sua honra.
Era o inicio da ascensão de Macário em Santo Macário.
Contudo, esta pequena Capela foi alvo de uma disputa entre duas freguesias vizinhas, a saber, S. Martinho das Moitas e Sul, que reclamavam para si as esmolas deixadas pelos fiéis.
Para resolver esta contenda construiu-se no ponto mais alto da serra, a poucas centenas de metros desta, uma outra Capela que foi também dedicada ao mesmo Santo e passou a ser conhecida por S. Macário Novo, ficando a outra com a designação de S. Macário Velho.
Ficou deste modo resolvido o diferendo, ficando cada freguesia com a sua Capela de S. Macário, quanto aos fiéis, esses dividiram-se entre as duas Capelas existentes.
Apesar das duas Capelas e das esmolas os tempos eram magros e de privações e S. Macário não era excepção e tal como os demais, sofria também os efeitos da pobreza.
O tempo é um grande mestre e Macário também foi aprendendo com ele e começou a ver na Aldeia de Maceira, a mais próxima, as chaminés a fumegar, sinal de lareira acesa e caldo de couves a ferver na panela de ferro.
Resolve descer á aldeia pedir uma malga de sopa para matar a fome e umas brasas para atear o lume a uns paus que havia reunido para se aquecer.
Bateu á porta de uma velhota, que vendo o seu aspecto miserável e de fome, lhe dá sem hesitar uma malga de caldo de couves bem quentinho, quanto às brasas…
“Onde as vais levar?
“Levo-as aqui nas minhas mãos, porque tenho poder divino e não me queimo.”
E assim foi feito, a pobre e boa velhota mesmo com muito medo de lhe provocar queimaduras, lá lhe depositou nas mãos as maiores e acesas brasas que tinha no seu braseiro e da parte do Santo nem um pequeno sinal de dor ou desconforto.
A velhota nem queria acreditar naquilo que estava a ver e a testemunhar, era de facto um momento único e irrepetível.
A notícia correu célere e em breve toda a aldeia comentava:
O Macário matou a cobra, leva as brasas nas mãos e não se queima, só pode ser Santo, é o Santo Macário… é o Santo Macário… ele é Santo… ele só pode ser Santo…
E nos dias seguintes á hora do recolher das brasas todas as pessoas da aldeia assistiam á passagem do S. Macário de brasas na mão sem se queimar, e iam-se ajoelhando á sua passagem.
Este ritual ia decorrendo normalmente até que um dia S. Macário encontrou, pelo íngreme caminho, que o levava á mísera gruta onde vivia, uma bela pastora a pastorear o seu rebanho e é então que surge a tentação.
Recorda os seus tempos de felicidade ao lado da sua mulher, do seu corpo fofinho e quente e dos seus alvos e rijos seios, dos manjares que comiam juntos e do vinho que também bebiam e ao sentir-se atraído e convidado pelo sorriso cúmplice da bela, jovem e formosa pastora, sentiu a tentação de a despir e amar; o seu coração batia acelerado, quase estoirava e saia do seu peito e … eis que nesse preciso instante sente uma enorme dor nas mãos, S. Macário acabara nesse preciso momento de se queimar!
Mas não deixou de ser Santo.
Ainda hoje se fazem romarias em sua homenagem, que arrastam multidões, sendo o seu apogeu no último Domingo de Julho, com a festa em sua honra que atrai milhares de peregrinos, forasteiros e amigos da Natureza que querem ver o Sol romper do outro lado da serra de Montemuro e dizem ser uma aurora de beleza única, espectacular e digna de ser contemplada ao vivo.
Esta é também uma das razões porque uma viagem ao monte de S. Macário merece a pena, faça-o porque nos iremos certamente lá encontrar.
Mário Miranda
Por várias razões vale sempre a pena uma viagem ao monte de S. Macário e uma das principais é termos a oportunidade única de purificarmos os pulmões com o ar virgem e puro, perfumado e leve, oferta natural e grátis do maciço da serra da Gralheira.
Para iniciarmos a viagem a partir de S. Pedro do Sul tomamos a direcção de Sul, depois a de S. Macário, a estrada é boa, o acesso é fácil e em poucos minutos estamos lá em cima a mais de mil metros de altura.
Se iniciarmos a viagem a partir de Castro Daire ela é muito mais bonita e interessante, com paisagens, diria eu, em 5D.
Na dimensão superior predomina o maravilhoso Céu azul clarinho, lindo como só ele sabe sê-lo; na parte imediatamente inferior há um reflexo esbranquiçado a ocupar todo o horizonte.
A dimensão imediatamente abaixo é de um azul de vários tons, alternando mais escuros ou claros de acordo com os relevos e as elevações das serras e dos montes.
A 3D oferece-nos a paisagem da aba da serra com o seu imenso verde de diversas árvores com predominação do pinheiro que lhe dá um tom de verde-escuro que se enquadra lindamente neste quadro maravilhoso pintado pele Mãe natureza.
A 4D oferece-nos a contemplação do casario semeado no vale da serra que iluminado com o quente e brilhante Sol Beirão lhe dá um toque de verniz neste quadro serrano e perfeito.
Por fim na 5D vêem-se de novo imensos pinhais, mas agora muito mais pertinho de nós, quase que podemos tocar-lhe e levar uma pinha de recordação; são grandes, frondosos e verdinhos, respiram saúde por todas as suas agulhas, e convidam os passarinhos a nele fazerem os seus ninhos.
Lá mais ao fundo vê-se uma estreita e serpenteada estrada que dá acesso a um amontoado de casas, algumas típicas da região com paredes de pedras de xisto e telhados de ardósia e nos parecem saudar, dizendo:
“Estamos aqui, somos serranas e resistentes.”
O acesso por Arouca passando pelo”Portal do Inferno” é mais radical e de pôr os cabelos em pé de tanta adrenalina que se gasta nas emoções da viagem.
A estrada é de terra batida, não tem protecções laterais apesar de haver precipícios de ambos os lados, pelo que se houver nevoeiro é complicado e desaconselhado a amadores.
Lá do alto de mais de mil metros de altitude temos uma perspectiva envolvente como se fossemos uma águia-real ou um milhafre, pelo que as paisagens são em grande plano e estão ali á frente do nosso nariz, deslumbrantes, coloridas e a sensação que sentimos é um misto de poder, liberdade, deleite e gozo que gostaríamos de perpetuar infinitamente.
Foi este o cenário que S. Macário escolheu para remir o seu pecado, que segundo reza a lenda é mais ou menos assim:
O jovem Macário, filho de boas famílias, que por via do seu trabalho passava algum tempo ausente de casa, um dia ao regressar ao lar mais cedo do que era esperado encontrou um homem deitado na sua cama e julgando que a sua mulher o estava a trair, cego de ciúme, Macário matou o homem enquanto este dormia.
Acabado de assassinar o indefeso, Macário verificou que acabara de matar o seu próprio pai, que sua esposa tinha acolhido em sua casa durante a sua ausência e tinha disponibilizado o seu quarto por ser o melhor da casa.
Perante este drama Macário fugiu como louco, acabando por parar no maciço da serra da Gralheira, um lugar isolado e agreste onde só havia silêncio, solidão, miséria e pedras, muitas pedras, onde viveu uma vida de isolamento, penitencia, jejuns, orações e muitas privações.
Alimentava-se de raízes de tojos e outras plantas serranas que arrancava com as próprias mãos e bebia águas das chuvas que ficavam depositadas em poças lá pela serra.
Era uma sombra daquilo que fora no passado.
Macário vivia triste e infeliz, mas sem se sentir criminoso, sentia antes que estava a cumprir o destino que a vida lhe reservou.
Lutar contra o destino é um combate perdido, quem nasceu para morrer enforcado não vai morrer afogado.
Para minimizar o seu calvário ajoelhava-se no chão e de olhos e braços erguidos ao Céu rezava e clamava o perdão do Senhor, pelo seu pecado involuntário.
Com o passar dos tempos Macário habituou-se ao meio ambiente e passou a dominá-lo matando por exemplo uma cobra que se escondia numa gruta e espalhava o terror e a morte das gentes e animais da aldeia da Pena e Covas do Rio, cuja gruta a partir dai passou a ocupar fazendo dela a sua casa.
Este acontecimento foi amplamente divulgado e as populações agradecidas construíram no local uma Capela em sua honra.
Era o inicio da ascensão de Macário em Santo Macário.
Contudo, esta pequena Capela foi alvo de uma disputa entre duas freguesias vizinhas, a saber, S. Martinho das Moitas e Sul, que reclamavam para si as esmolas deixadas pelos fiéis.
Para resolver esta contenda construiu-se no ponto mais alto da serra, a poucas centenas de metros desta, uma outra Capela que foi também dedicada ao mesmo Santo e passou a ser conhecida por S. Macário Novo, ficando a outra com a designação de S. Macário Velho.
Ficou deste modo resolvido o diferendo, ficando cada freguesia com a sua Capela de S. Macário, quanto aos fiéis, esses dividiram-se entre as duas Capelas existentes.
Apesar das duas Capelas e das esmolas os tempos eram magros e de privações e S. Macário não era excepção e tal como os demais, sofria também os efeitos da pobreza.
O tempo é um grande mestre e Macário também foi aprendendo com ele e começou a ver na Aldeia de Maceira, a mais próxima, as chaminés a fumegar, sinal de lareira acesa e caldo de couves a ferver na panela de ferro.
Resolve descer á aldeia pedir uma malga de sopa para matar a fome e umas brasas para atear o lume a uns paus que havia reunido para se aquecer.
Bateu á porta de uma velhota, que vendo o seu aspecto miserável e de fome, lhe dá sem hesitar uma malga de caldo de couves bem quentinho, quanto às brasas…
“Onde as vais levar?
“Levo-as aqui nas minhas mãos, porque tenho poder divino e não me queimo.”
E assim foi feito, a pobre e boa velhota mesmo com muito medo de lhe provocar queimaduras, lá lhe depositou nas mãos as maiores e acesas brasas que tinha no seu braseiro e da parte do Santo nem um pequeno sinal de dor ou desconforto.
A velhota nem queria acreditar naquilo que estava a ver e a testemunhar, era de facto um momento único e irrepetível.
A notícia correu célere e em breve toda a aldeia comentava:
O Macário matou a cobra, leva as brasas nas mãos e não se queima, só pode ser Santo, é o Santo Macário… é o Santo Macário… ele é Santo… ele só pode ser Santo…
E nos dias seguintes á hora do recolher das brasas todas as pessoas da aldeia assistiam á passagem do S. Macário de brasas na mão sem se queimar, e iam-se ajoelhando á sua passagem.
Este ritual ia decorrendo normalmente até que um dia S. Macário encontrou, pelo íngreme caminho, que o levava á mísera gruta onde vivia, uma bela pastora a pastorear o seu rebanho e é então que surge a tentação.
Recorda os seus tempos de felicidade ao lado da sua mulher, do seu corpo fofinho e quente e dos seus alvos e rijos seios, dos manjares que comiam juntos e do vinho que também bebiam e ao sentir-se atraído e convidado pelo sorriso cúmplice da bela, jovem e formosa pastora, sentiu a tentação de a despir e amar; o seu coração batia acelerado, quase estoirava e saia do seu peito e … eis que nesse preciso instante sente uma enorme dor nas mãos, S. Macário acabara nesse preciso momento de se queimar!
Mas não deixou de ser Santo.
Ainda hoje se fazem romarias em sua homenagem, que arrastam multidões, sendo o seu apogeu no último Domingo de Julho, com a festa em sua honra que atrai milhares de peregrinos, forasteiros e amigos da Natureza que querem ver o Sol romper do outro lado da serra de Montemuro e dizem ser uma aurora de beleza única, espectacular e digna de ser contemplada ao vivo.
Esta é também uma das razões porque uma viagem ao monte de S. Macário merece a pena, faça-o porque nos iremos certamente lá encontrar.
Mário Miranda

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