A nossa Pátria tem sido, ao longo da sua existência, muito mazinha para os seus filhos e como Mãe desnaturada que é, continua a sê-lo nos dias de hoje.
Não é de admirar que Paris seja apelidada da terceira Cidade de Portugal, tal é a quantidade de Nacionais que desafogadamente, lá vivem as suas vidas.
Também eu, um dia, desiludido e sem esperança em melhores dias, meti pernas a caminho da estação de Santa Apolónia e embarquei no célebre Sud-Express, que me iria levar até à Alemanha.
Em Hendaya, fronteira da Espanha com a França, houve que mudar de comboio, visto que o Sud-Express tinha os eixos das rodas mais estreitos e não podia rodar nos carris Franceses e Alemães, de carris mais largos, permitindo deste modo velocidades superiores.
Era o primeiro sinal de mudança entre ricos e pobres, Países atrasados e desenvolvidos.
O comboio moderno lá ia fazendo a sua viagem, levando-nos ao nosso destino e ia-nos oferecendo paisagens de grandes plantações de beterraba, milho, cereais, hortaliças, etc. etc. tudo muito bem tratadinho e verdinho, sinónimo de muito trabalho e boas regas, muitas delas da Natureza, porque como é sabido em França chove muito.
Já na Alemanha, as grandes plantações que víamos em França, também eram visíveis, mas em menos quantidade, o que se via por todo o lado eram aquelas altas e redondas chaminés das fábricas, a denunciar que estávamos perante um colosso Industrial.
Krefeld foi a Cidade que me acolheu, sem reclamações, aquando da minha aventura de emigrante e eu soube recompensá-la aceitando-a, estimando-a e gostando dela como se nela tivesse nascido.
Esta Cidade começou a tornar-se moderna no inicio do século passado mas os primeiros passos na industrialização tiveram inicio em 1692 com a produção de cordas, veludo e seda, que pela sua excelente qualidade eram conhecidas em todo o Mundo. Nunca mais parou, atingindo o seu apogeu nos anos dourados de 60/70 e 80 com a T.A.G. no fabrico de têxteis, a Simpelkamp e a Thyssen no ferro, a Bayer Uerdingem nos medicamentos a Waggon-fabrik nos comboios e eléctricos e tantas outras fábricas, produzindo coisas diversas como automóveis, electrodomésticos, pneus, aviões, barcos, auto caravanas, etc.
Krefeld situa-se na região administrativa de Dusseldorf na Rhenania do Norte-Westefalia, tem uma área de 137 Km2 e 236.500 habitantes e foi durante a segunda guerra mundial, nos dias 21 e 22 de Junho de 1943 (tinha eu 9 meses) praticamente destruída e de novo em Janeiro de 1945.
Tem como patrono S. Dionysios e desta Cidade saíram os primeiros emigrantes para a América em 1683 onde formaram a “ Germantown” conhecida hoje por Philadelphia.
Krefeld tinha nos anos sessenta três hospitais principais, sendo um deles especializado no tratamento de queimados e bem falta fazia porque na Industria do metal ocorriam por vezes acidentes com queimaduras, sobretudo nas fundições; apesar de se usar equipamento adequado ao trabalho, como por exemplo um avental anti-fogo, um capacete com uma viseira em acrílico para protecção da cara e uma pala em couro por detrás para proteger o pescoço, por muito cuidado que se tivesse e tinha-se, às vezes o acidente espreitava e fazia das suas. Recordo que nas fundições quando se fabricava um ferro especial, este quando estava no seu estado líquido e a uma temperatura de mais de dois mil graus, era-lhe adicionado um aditivo que provocava uma espécie de fogo-de-artifício que era projectado para o ar e para os lados e durante meio minuto havia que fugir ali das imediações para evitar o acidente. Eu próprio trabalhei no forno de uma fundição durante um mês a fazer as férias de um colega e sei por experiência própria que é um trabalho de risco e muito, muito duro. O calor é abrasador, é o inferno na terra, provoca uma sede constante e nós bebemos tudo o que nos aparece à frente.
Como é sabido nos Países do Norte, onde o frio impera, os seus habitantes para o afastarem e se sentirem mais quentinhos por dentro, bebem umas aguardentes, uns Brandys e uns Whiskys.
Numa fábrica onde trabalhei havia mesmo uma tertúlia onde na véspera era nomeado o “mano” que no dia seguinte ia trazer a garrafinha de “schnaps” (aguardente) e de manhã bem cedo, às seis da manhã por exemplo, quem fizesse parte do grupo ia molhar o bico.
A Alemanha pelo seu poderio económico, ciência, investigação, formação, cultura, êxitos no domínio desportivo, exposições, feiras industriais, literárias e naturalmente muitas outras coisas, foi outrora e continua a ser hoje a locomotiva da Europa.
Os seus filhos tinham nos anos dourados um padrão de vida invejáveis e quem tivesse a sorte de viver e trabalhar lá nessa altura, tirava também dividendos da situação, para tanto só teria que cumprir a sua obrigação, a de trabalhar, satisfeita essa parte o resto rodava automaticamente.
A assistência médica, por exemplo, era perfeita e funcionava assim:
Nós tínhamos em nosso poder credenciais e em caso de doença preenchíamos, assinávamos e íamos ao médico que queríamos, quando e onde quiséssemos; Já no consultório esperávamos pela nossa vez e éramos atendidos e medicados na hora, sem burocracias nem gastar um pfennig (que na nossa moeda é equivalente ao cêntimo), simples não é?
O mesmo se passava em caso de internamento hospitalar e cirurgias.
Eu próprio fui operado às amígdalas, estive uma semana internado e paguei igual preço.
Pergunto-me constantemente a razão porque Portugal não copiou ou copia esse modelo?
O dinheiro que gastam nas rendas dos centros de saúde e nos ordenados dos médicos e restante pessoal, seria talvez suficiente para financiar este modelo com vantagens nítidas para os utentes, que não tinham que aturar as más disposições e más vontades dos funcionários dos centros de saúde, onde somos muitas vezes tratados como se fossemos uns fora da lei, ou se tivéssemos culpa por estarmos doentes; o Português que detém o poder adora dificultar a vida ao seu subalterno, está-lhe no gene e falta-lhe o feeling para ocupar lugares de trabalho onde ele é tão importante.
Na hora de pensar no regresso nós vimo-nos perante um sério dilema.
Há uma força a dizer não vás porque aqui já sabes que tens, trabalho, a vida organizada, cumpre-se a lei, o povo é culto, vives na abundância e sem nenhum tipo de problemas, tudo isto para além do que granjeaste ao longo dos tempos.
Depois há outra menos forte a dizer vai, lá encontrarás o teu cantinho, os teus amigos, o teu Sol luminoso e bem quentinho, que não tem nada a ver com o seu igual da Alemanha que era pálido e sem força e acaba por ser este o factor chave para o regresso, o nosso luminoso e quentinho Sol.
As fábricas são normalmente lugares muito poluídos e há outros trabalhos também altamente prejudiciais à saúde como por exemplo o de mineiro, pelo que é muito vulgar encontrar pequenas hortas disponibilizadas pelas autarquias, que se alugam a esses operários mais carentes de ar puro, que lá passam todo o seu tempo livre, cultivando as suas saladas, os chás, as flores, os espargos, as couves de Bruxelas, os pepinos etc., lá grelham as suas costeletas, as salsichas e bebem a sua inimitável e deliciosa cerveja em franca e aberta camaradagem com as famílias das hortas contíguas transformando um simples dia de folga num dia de convívio e de festa.
E, um dia eu soube que o meu encarregado e Amigo, Ernst, que infelizmente já não está entre nós, tinha uma hortinha e nela uma grande e frondosa ginjeira com lindas e rosadas ginjas e disse-lhe:
“ Ernst se me trouxeres umas quantas ginjas eu faço um licor e depois dou-te uma garrafinha para provares.”
Respondeu que dava as ginjas mas tinha que ser eu a ir lá colhê-las.
E assim foi, no dia combinado lá estava eu a visitar o Ernst e a sua colorida ginjeira.
Lá o encontrei na sua bem cuidada hortinha, onde se salientava uma mini moradia muito gira, em madeira castanha, equipada com um pequeno W.C., o telhado era inclinado, para evitar a acumulação de neve, tinha quatro janelinhas envidraçadas, duas do lado Sul e as outras do lado Norte e que servia na perfeição para guardar não só os utensílios campestres, mas também uma mesa e algumas cadeiras de plástico, um grelhador para grelhar as costeletas e as salsichas e naturalmente um pequeno frigorífico para refrescar as cervejas, como é normal serem saboreadas e bebidas.
Depois de apanhar as ginjas, bebemos uma cerveja, isso é religioso e ao despedir-me do Ernst ele disse que vinha comigo (ele não conduzia, nunca soube porquê) e antes de se vir embora eu vejo-o todo cuidadoso a encher de água todos os pequenos recipientes que havia lá dispersos pela horta.
Intrigado perguntei-lhe:
- “ Para que é isso Ernst?”
-“ É para os passarinhos beberem.”
-“ Para os passarinhos beberem? Mas eles vêm aqui comer as sementes e os frutos e tu ainda lhes dás de beber?”
-“ Sabes Phillipe (era assim que ele me chamava) temos que viver e deixar viver.”
Fiquei sem palavras!..
Grande lição de vida!.. “Viver e deixar viver.”
Nunca tinha pensado nisso!..
As suas experiências, dificuldades, medos e o risco a que foi submetido nos mares da Argentina como tripulante de um submarino, na segunda guerra mundial, devem-no ter moldado no homem que era: Bom, nobre, caritativo, honesto, calmo, amigo de ajudar o seu semelhante e possuidor de uma alma do tamanho do Mundo e quando todas estas qualidades se conjugam a melhor homenagem que se pode fazer às pessoas bondosas é imitá-las.
Éramos Amigos e a partir daquele momento ficou para sempre no meu coração como sendo um Homem exemplar e exemplar, como sabem, quer dizer um exemplo a seguir.
Quando conhecemos as pessoas bondosas, percebemos que ainda são melhores do que pensávamos.
Se todo o ser Humano pensasse de igual modo e seguisse a sua ordem de ideias, o Mundo estaria certamente muito melhor, não haveria bullying nas escolas e nos empregos nem corruptos e corruptores, invejas, ganâncias e camadas sociais tão diferenciadas, como há de momento não só no nosso cantinho mas em todo o Planeta.
Depois de ter regressado da Alemanha em 1985 até Dezembro de 2008 mantivemos sempre contacto por escrito que só terminou porque ele interrompeu o contacto com os vivos e já não me pode escrever e mandar os selos que coleccionávamos e trocávamos reciprocamente.
Ernst onde quer que te encontres, desejo-te que estejas bem.
Serás sempre recordado, com respeito e saudade, pelos teus amigos, colegas e pela tua Família e quando isso acontece já mereceu a pena ter passado por este Mundo.
Recordo-te que a morte não existe, só mudam as condições de vida e que a vida dos mortos está na memória dos vivos, como é o caso.
Até sempre “mein freund” era assim que eu também lhe chamava.
Mário Miranda
Não é de admirar que Paris seja apelidada da terceira Cidade de Portugal, tal é a quantidade de Nacionais que desafogadamente, lá vivem as suas vidas.
Também eu, um dia, desiludido e sem esperança em melhores dias, meti pernas a caminho da estação de Santa Apolónia e embarquei no célebre Sud-Express, que me iria levar até à Alemanha.
Em Hendaya, fronteira da Espanha com a França, houve que mudar de comboio, visto que o Sud-Express tinha os eixos das rodas mais estreitos e não podia rodar nos carris Franceses e Alemães, de carris mais largos, permitindo deste modo velocidades superiores.
Era o primeiro sinal de mudança entre ricos e pobres, Países atrasados e desenvolvidos.
O comboio moderno lá ia fazendo a sua viagem, levando-nos ao nosso destino e ia-nos oferecendo paisagens de grandes plantações de beterraba, milho, cereais, hortaliças, etc. etc. tudo muito bem tratadinho e verdinho, sinónimo de muito trabalho e boas regas, muitas delas da Natureza, porque como é sabido em França chove muito.
Já na Alemanha, as grandes plantações que víamos em França, também eram visíveis, mas em menos quantidade, o que se via por todo o lado eram aquelas altas e redondas chaminés das fábricas, a denunciar que estávamos perante um colosso Industrial.
Krefeld foi a Cidade que me acolheu, sem reclamações, aquando da minha aventura de emigrante e eu soube recompensá-la aceitando-a, estimando-a e gostando dela como se nela tivesse nascido.
Esta Cidade começou a tornar-se moderna no inicio do século passado mas os primeiros passos na industrialização tiveram inicio em 1692 com a produção de cordas, veludo e seda, que pela sua excelente qualidade eram conhecidas em todo o Mundo. Nunca mais parou, atingindo o seu apogeu nos anos dourados de 60/70 e 80 com a T.A.G. no fabrico de têxteis, a Simpelkamp e a Thyssen no ferro, a Bayer Uerdingem nos medicamentos a Waggon-fabrik nos comboios e eléctricos e tantas outras fábricas, produzindo coisas diversas como automóveis, electrodomésticos, pneus, aviões, barcos, auto caravanas, etc.
Krefeld situa-se na região administrativa de Dusseldorf na Rhenania do Norte-Westefalia, tem uma área de 137 Km2 e 236.500 habitantes e foi durante a segunda guerra mundial, nos dias 21 e 22 de Junho de 1943 (tinha eu 9 meses) praticamente destruída e de novo em Janeiro de 1945.
Tem como patrono S. Dionysios e desta Cidade saíram os primeiros emigrantes para a América em 1683 onde formaram a “ Germantown” conhecida hoje por Philadelphia.
Krefeld tinha nos anos sessenta três hospitais principais, sendo um deles especializado no tratamento de queimados e bem falta fazia porque na Industria do metal ocorriam por vezes acidentes com queimaduras, sobretudo nas fundições; apesar de se usar equipamento adequado ao trabalho, como por exemplo um avental anti-fogo, um capacete com uma viseira em acrílico para protecção da cara e uma pala em couro por detrás para proteger o pescoço, por muito cuidado que se tivesse e tinha-se, às vezes o acidente espreitava e fazia das suas. Recordo que nas fundições quando se fabricava um ferro especial, este quando estava no seu estado líquido e a uma temperatura de mais de dois mil graus, era-lhe adicionado um aditivo que provocava uma espécie de fogo-de-artifício que era projectado para o ar e para os lados e durante meio minuto havia que fugir ali das imediações para evitar o acidente. Eu próprio trabalhei no forno de uma fundição durante um mês a fazer as férias de um colega e sei por experiência própria que é um trabalho de risco e muito, muito duro. O calor é abrasador, é o inferno na terra, provoca uma sede constante e nós bebemos tudo o que nos aparece à frente.
Como é sabido nos Países do Norte, onde o frio impera, os seus habitantes para o afastarem e se sentirem mais quentinhos por dentro, bebem umas aguardentes, uns Brandys e uns Whiskys.
Numa fábrica onde trabalhei havia mesmo uma tertúlia onde na véspera era nomeado o “mano” que no dia seguinte ia trazer a garrafinha de “schnaps” (aguardente) e de manhã bem cedo, às seis da manhã por exemplo, quem fizesse parte do grupo ia molhar o bico.
A Alemanha pelo seu poderio económico, ciência, investigação, formação, cultura, êxitos no domínio desportivo, exposições, feiras industriais, literárias e naturalmente muitas outras coisas, foi outrora e continua a ser hoje a locomotiva da Europa.
Os seus filhos tinham nos anos dourados um padrão de vida invejáveis e quem tivesse a sorte de viver e trabalhar lá nessa altura, tirava também dividendos da situação, para tanto só teria que cumprir a sua obrigação, a de trabalhar, satisfeita essa parte o resto rodava automaticamente.
A assistência médica, por exemplo, era perfeita e funcionava assim:
Nós tínhamos em nosso poder credenciais e em caso de doença preenchíamos, assinávamos e íamos ao médico que queríamos, quando e onde quiséssemos; Já no consultório esperávamos pela nossa vez e éramos atendidos e medicados na hora, sem burocracias nem gastar um pfennig (que na nossa moeda é equivalente ao cêntimo), simples não é?
O mesmo se passava em caso de internamento hospitalar e cirurgias.
Eu próprio fui operado às amígdalas, estive uma semana internado e paguei igual preço.
Pergunto-me constantemente a razão porque Portugal não copiou ou copia esse modelo?
O dinheiro que gastam nas rendas dos centros de saúde e nos ordenados dos médicos e restante pessoal, seria talvez suficiente para financiar este modelo com vantagens nítidas para os utentes, que não tinham que aturar as más disposições e más vontades dos funcionários dos centros de saúde, onde somos muitas vezes tratados como se fossemos uns fora da lei, ou se tivéssemos culpa por estarmos doentes; o Português que detém o poder adora dificultar a vida ao seu subalterno, está-lhe no gene e falta-lhe o feeling para ocupar lugares de trabalho onde ele é tão importante.
Na hora de pensar no regresso nós vimo-nos perante um sério dilema.
Há uma força a dizer não vás porque aqui já sabes que tens, trabalho, a vida organizada, cumpre-se a lei, o povo é culto, vives na abundância e sem nenhum tipo de problemas, tudo isto para além do que granjeaste ao longo dos tempos.
Depois há outra menos forte a dizer vai, lá encontrarás o teu cantinho, os teus amigos, o teu Sol luminoso e bem quentinho, que não tem nada a ver com o seu igual da Alemanha que era pálido e sem força e acaba por ser este o factor chave para o regresso, o nosso luminoso e quentinho Sol.
As fábricas são normalmente lugares muito poluídos e há outros trabalhos também altamente prejudiciais à saúde como por exemplo o de mineiro, pelo que é muito vulgar encontrar pequenas hortas disponibilizadas pelas autarquias, que se alugam a esses operários mais carentes de ar puro, que lá passam todo o seu tempo livre, cultivando as suas saladas, os chás, as flores, os espargos, as couves de Bruxelas, os pepinos etc., lá grelham as suas costeletas, as salsichas e bebem a sua inimitável e deliciosa cerveja em franca e aberta camaradagem com as famílias das hortas contíguas transformando um simples dia de folga num dia de convívio e de festa.
E, um dia eu soube que o meu encarregado e Amigo, Ernst, que infelizmente já não está entre nós, tinha uma hortinha e nela uma grande e frondosa ginjeira com lindas e rosadas ginjas e disse-lhe:
“ Ernst se me trouxeres umas quantas ginjas eu faço um licor e depois dou-te uma garrafinha para provares.”
Respondeu que dava as ginjas mas tinha que ser eu a ir lá colhê-las.
E assim foi, no dia combinado lá estava eu a visitar o Ernst e a sua colorida ginjeira.
Lá o encontrei na sua bem cuidada hortinha, onde se salientava uma mini moradia muito gira, em madeira castanha, equipada com um pequeno W.C., o telhado era inclinado, para evitar a acumulação de neve, tinha quatro janelinhas envidraçadas, duas do lado Sul e as outras do lado Norte e que servia na perfeição para guardar não só os utensílios campestres, mas também uma mesa e algumas cadeiras de plástico, um grelhador para grelhar as costeletas e as salsichas e naturalmente um pequeno frigorífico para refrescar as cervejas, como é normal serem saboreadas e bebidas.
Depois de apanhar as ginjas, bebemos uma cerveja, isso é religioso e ao despedir-me do Ernst ele disse que vinha comigo (ele não conduzia, nunca soube porquê) e antes de se vir embora eu vejo-o todo cuidadoso a encher de água todos os pequenos recipientes que havia lá dispersos pela horta.
Intrigado perguntei-lhe:
- “ Para que é isso Ernst?”
-“ É para os passarinhos beberem.”
-“ Para os passarinhos beberem? Mas eles vêm aqui comer as sementes e os frutos e tu ainda lhes dás de beber?”
-“ Sabes Phillipe (era assim que ele me chamava) temos que viver e deixar viver.”
Fiquei sem palavras!..
Grande lição de vida!.. “Viver e deixar viver.”
Nunca tinha pensado nisso!..
As suas experiências, dificuldades, medos e o risco a que foi submetido nos mares da Argentina como tripulante de um submarino, na segunda guerra mundial, devem-no ter moldado no homem que era: Bom, nobre, caritativo, honesto, calmo, amigo de ajudar o seu semelhante e possuidor de uma alma do tamanho do Mundo e quando todas estas qualidades se conjugam a melhor homenagem que se pode fazer às pessoas bondosas é imitá-las.
Éramos Amigos e a partir daquele momento ficou para sempre no meu coração como sendo um Homem exemplar e exemplar, como sabem, quer dizer um exemplo a seguir.
Quando conhecemos as pessoas bondosas, percebemos que ainda são melhores do que pensávamos.
Se todo o ser Humano pensasse de igual modo e seguisse a sua ordem de ideias, o Mundo estaria certamente muito melhor, não haveria bullying nas escolas e nos empregos nem corruptos e corruptores, invejas, ganâncias e camadas sociais tão diferenciadas, como há de momento não só no nosso cantinho mas em todo o Planeta.
Depois de ter regressado da Alemanha em 1985 até Dezembro de 2008 mantivemos sempre contacto por escrito que só terminou porque ele interrompeu o contacto com os vivos e já não me pode escrever e mandar os selos que coleccionávamos e trocávamos reciprocamente.
Ernst onde quer que te encontres, desejo-te que estejas bem.
Serás sempre recordado, com respeito e saudade, pelos teus amigos, colegas e pela tua Família e quando isso acontece já mereceu a pena ter passado por este Mundo.
Recordo-te que a morte não existe, só mudam as condições de vida e que a vida dos mortos está na memória dos vivos, como é o caso.
Até sempre “mein freund” era assim que eu também lhe chamava.
Mário Miranda
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