O CATORZE




Santa Cruz da Trapa é uma Vila do Concelho de S. Pedro do Sul com 21,29 Km2 de área e cerca de 1400 habitantes. O seu antigo nome era São Mamede do Barrroso. Situa-se na estrada Nacional que liga S. Pedro do Sul ao Porto e é uma Vila tipicamente Beirã, com algum comércio e Industria, com usos e costumes rurais, mas onde o tractor há muito tempo que substituiu o típico carro de bois. Tem turismo rural de muito boa qualidade e pelo menos um bom restaurante. A Serra da Arada faz-lhe companhia desde sempre e envia-lhe o ar purificado pelos imensos pinhais, castanheiros, carvalhos, medronheiros e outras árvores, não só da floresta mas também de fruto. É este ar que prolonga a vida dos naturais, com uma excelente qualidade e os faz viverem saudáveis até aos cem anos.

No Século passado houve nesta Terra uma figura original, que era conhecida não só por todas as gentes nativas, mas também em todas as Aldeias das redondezas, nem que fosse só por ter ouvido contar as suas histórias, era conhecido pelo “ Catorze. “

Pelo facto de ter dito que o “ Catorze “ tinha vivido no Século passado, não julguem que foi há muito tempo. Como é sabido o novo Século ainda usa fralda, ainda é uma criança, só tem dez anos de idade, há pois nos dias de hoje muita gente viva e de boa saúde que conheceu o nosso personagem pessoalmente.

A minha fonte de informação não me conseguiu esclarecer a origem do cognome, mas certamente não foi por ter ido Catorze vezes seguidas á missa, nem por ter comido Catorze almoços num só dia, como o seu igual de Nelas, que era conhecido pelo “ Sete “ por ter comido Sete almoços num só dia; não, este “ Catorze “ passava muito frio nos dentes, isto é: passava fome; o mais natural é que a alcunha tivesse surgido por ele ter passado Catorze dias sem comer, ou quem sabe, Catorze dias a comer só cebolas, ou ainda ser esta a sua décima - quarta encarnação, a última, a que ia remir todos os pecados feitos nas encarnações anteriores e iria abrir as portas do Céu para o descanso eterno, tal o sofrimento a que foi exposto na sua recente passagem pelo Mundo dos Humanos.

O Catorze era um pobre diabo, como se diz na linguagem do povo; nunca deve ter metido um pé na escola, em vez disso, ajudava os Pais nas lides da casa, a tratar dos animais, no amanho das terras, nas sementeiras das batatas, couves, milho, cebolas, etc, nas sachas, mondas, regas e finalmente nas colheitas, porque cá nas redondezas corre a máxima: “ Trabalho de menino é pouco, quem o despreza é louco. “

Enquanto os seus Pais foram vivos, apesar da vida pobre e dura, não faltava a malga do caldo das couves que havia em quantidade no terreno em frente á casa e o naco da broa de milho que era cozida uma vez por semana nos fornos comunitários. Mas tudo é efémero e com o desaparecimento dos seus Pais o nosso personagem, que nesta altura se calhar ainda não era conhecido pelo “ Catorze “, desinteressou-se pela vida, deixou de trabalhar as terras, deixou de fazer manutenção na casa e passou a viver uma vida primitiva e paupérrima. Era de estatura alta e tinha uma força fora do normal, tendo em vista as privações que levava. Por vezes fazia pequenos trabalhos, como por exemplo rachar lenha, ou descarregar a carga de uma camioneta. Mas o mais natural era vê-lo deambular por Santa Cruz e aldeias vizinhas.

Alimentava-se daquilo que ia encontrando nos campos tal como cebolas, uvas, maças, pêssegos, milho, peras, castanhas, nozes, figos enfim tudo o que fosse comestível e estivesse á mão. Mas nem sempre a Natureza é fértil nas suas dádivas. Nos Invernos e nas Primaveras as terras tem pouco para dar, o frio e a fome apertavam e a vida do nosso "Catorze" era, nessas estações do ano, verdadeiramente difícil.

Nas suas deambulações lá ia encontrando aqui e ali uma alma caridosa, que conhecendo o seu sofrimento e as suas necessidades, lhe ia dando uma malga de couves e um naco de broa.

Quando passava por algum tosco-tasco e os presentes o viam, chamavam-no e era certo e sabido que ele ia quebrar a rotina do tasco e ia animar o ambiente, a sua presença física só por si era suficiente para produzir essa transformação.

Era sabido que se ele visse alguém a comer uma sandes de presunto dizia uma quadra que sabia de cor e salteado e sempre bem soletrado, o que nem sempre acontecia.



Muita palha come o burro

Mais burro quem lha dá

Come só uma metade

Passa a outra para cá.

Era certinho, direitinho que de seguida vinha de dentro do balcão uma bruta sandes de presunto para o nosso herói, acompanhada de um copinho do americano, que era engolida com a impaciência e a sofreguidão de quem passava dias inteiros sem comer.

Em alturas de excesso e o excesso aqui é de dois copitos, para lhe fazer pesar a cabeça e as pernas e já com o “ grão na asa “ virava Trovador e rua abaixo a caminho do casebre onde vivia, ia parando á porta de todas as casas que encontrava e de cabeça levantada a olhar para as janelas, cantarolava qualquer coisa que só ele percebia e os comuns dos mortais decifraram como: mmmnnnmmmnnnmmnnnsssêêêhhhooolllaaa mmmnnnmmmnnnmmmnnnsssêêêhhhooolllaaa e o sssêêêhhhooolllaaa queria dizer Senhora.

Este ritual podia demorar horas, o tempo para ele não contava, entretanto fazia-se noite e sabido que é as pessoas nas aldeias deitarem-se com as galinhas, foram muitas vezes acordadas pelas serenatas do “ Catorze “ ás onze horas, meia-noite, o que de vez em quando lhe custava levar com um copo de água pela cabeça abaixo, mas o pobre e pacifico “ Catorze “não desistia da sua cantarolice e mesmo molhado lá seguia no seu ritual, que só acabava na ultima casa e lá vinha de novo a lenga-lenga mmmnnnmmmnnnmmmnnnsssêêêhhhooolllaaa.

Já velhote e marcado pelo sofrimento da vida miserável que levava, o nosso “ Catorze “entrou no lar de idosos e naturalmente a primeira coisa que lhe fizeram foi dar-lhe um banho. Foi talvez o primeiro banho da sua vida, mas que foi o último lá isso foi porque o nosso “ Catorze “ finou-se nesse dia.

Curiosamente nesse dia faleceu também o Senhor Doutor da Vila, os funerais foram marcados para o mesmo dia. O referido Doutor era um homem abastado em propriedades e prestígio. Era o mais importante político que o Salazar tinha no distrito de Viseu. Foi Governador Civil e deputado durante décadas.
Como é notório, pelo que já se disse, o contraste com o Catorze era absoluto. Não havia na região ninguém com menos prestígio nem mais pobre que ele.

A morte do Senhor Doutor foi amplamente divulgada e abafou por completo a morte do nosso personagem.

No dia do funeral o cortejo fúnebre do nosso “ Catorze “ saiu primeiro da Igreja, pelo que todas as pessoas presentes e desconhecendo que havia dois funerais o seguiram, pensando tratar-se do funeral do Senhor Doutor e o resultado final é que o “ Catorze “ teve um funeral enorme enquanto o Senhor Doutor só teve meia dúzia de pessoas, certamente os que chegaram mais atrasados.
Foi preciso o nosso amigo morrer para ter um dia de glória. Imagino os saltos de alegria e as risadas estridentes com que manifestou a sua felicidade quando chegou ao Céu e o S. Pedro lhe contou o sucedido.
Embora se tivessem cruzado no Calvário de Santa Cruz tanta vez, a distância entre a miséria e a loucura de um e a riqueza e a inteligência do outro era tão grande e, no entanto, a Morte tudo nivelou, ambos, na mesma hora, desceram à terra que, aliada ao tempo, se encarregou de os reduzir a pó e ao esquecimento.

                 Mário Miranda

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