Olha, se a tradição se mantivesse? Era um festival a cada esquina!
Mas, o que era a chocalhada? A chocalhada era:
Quando era sabido que uma mulher traía o marido e este aceitava continuar ou voltar a viver em comunhão com a”dita cuja” a rapaziada solteira, porque os casados tinham medo de “cuspir para o ar” juntavam-se e munidos dos mais variados instrumentos musicais e tudo o mais que fizesse barulho, tais como chocalhos (daí o nome chocalhada), guizos, tambores, concertinas, guizalhadas, violas, violinos, pandeiretas, latões, tambores, trombone, etc, etc, juntavam-se ao inicio da noite e até de madrugada reuniam-se à porta dos visados e toca, quanto mais barulho melhor; incluíam-se ainda quadras soltas que satirizavam a atitude dos visados.
E esta diversão para uns e pesadelo para os outros, durava uma semana ou mais, era até não terem mais vontade de chatear, ou serem impedidos de o fazer, como foi o caso.
Ligeira é o nome da única chocalhada a que o relator assistiu e colaborou.
Que aconteceu no caso Ligeira?
Ligeira era o nome pelo qual este casal era conhecido.
Um dia um amigo do Senhor Ligeira chamou-o à parte e disse-lhe:
- “ A tua mulher anda a trair-te.”
-“ Não brinques com isso:”
-“ Se não acreditas vai a tal lugar que lá os encontrarás.”
E era verdade crua e nua, lá estavam os dois - a Senhora Ligeira e o amante.
E o resultado foi: Carga de porrada na mulher e posta fora de casa, mas passados dois dias já estavam juntos de novo.
Passadas algumas semanas, os amantes não resistiram à tentação, voltaram a encontrar-se e a serem apanhados de novo; repetiu-se a receita: Nova carga de porrada na Senhora Ligeira e rua…
Na época a taberna era o ponto de encontro, o centro de convívio entre as populações e muitas vezes o centro de decisões de assuntos de interesse colectivo, não é o caso, mas o
pessoal na taberna comentava e criticava o Senhor Ligeira, que não tinha vergonha em voltar a viver com aquela mulher.
Aí o Senhor Ligeira num rasgo de coragem disse:
- “ Se voltar a juntar-me com aquela puta podem fazer-me uma grande chocalhada:”
Dito e feito, três dias depois a união conjugal realizou-se.
E agora?
Na taberna comentava-se:
O Ligeira disse que se voltasse a juntar-se aquela p… podíamos fazer-lhe uma chocalhada e nós não vamos fazer nada?
Salta o Desidério: “ Eu tenho lá em casa umas guizalhadas dos cavalos e mais uns chocalhos das vacas e mais algumas coisas que posso emprestar".
O Joaquim da Fátima também arranjou mais alguns instrumentos, mais uma latas e latões velhos e arranjou-se uma orquestra quase perfeita.
-“E agora?”
- “Eles vêm no comboio das 19 horas, vamos esconder-nos atrás da estação e quando eles pegarem estrada acima, nós fazemos o acompanhamento atrás deles.”
Dito e feito, chega o comboio, sai o casal Ligeira e lá vão eles estrada fora em direcção ao povoado e “pimba” cai a malta toda em cima deles e toca a rufar.
Até chegarem a casa foi um consolo que se prolongou noite dentro.
No segundo dia, “ balde de água fria.”
O pessoal foi de novo para trás da estação, mas o casal Ligeira fez-nos um manguito e não vieram no comboio.
Então o pessoal pensou:
Não vem neste vem no outro.
Mas também não vieram no seguinte.
Ai os maganos… devem ter vindo na camioneta da carreira.
Vamos a casa deles.
E lá toca, canta, rufa, bate tambores, pandeiretas, latas e latões e os visados não dão cor da sua presença, até que um mais atrevido bate á porta e diz:
-“ Oh boi se estás aí sai cá para fora que nós queremos fazer-te uma pega de cernelha.”
A Ligeira não gostou deste atrevimento e no dia seguinte em vez de ir para o trabalho, foi para a Vila de Castro Marim e apresentou queixa na G.N.R.
Nós fomos avisados que a G.N.R. iria lá nessa noite, mas houve logo quem dissesse que nós iamos continuar, que a festa estava boa e se nós não fugirmos eles não nos podem levar todos presos.
Conjugaram-se as ideias.
Ninguém foge.
O. K. Vamos.
E assim foi.
Se na primeira noite se juntaram cerca de trinta chocalheiros, na segunda à volta de oitenta e na terceira eram esperados mais de cento e cinquenta.
Só que no inicio da terceira chocalhada, de repente, o relator vê toda a malta a fugir e quando se apercebe a razão da debandada, já era tarde para o fazer e é apanhado com a boca no trombone, assim como o Ti Zé André que é apanhado com um balde de lata com três pedra lá dentro e chocalhava, chocalhava, quando o soldado da G.N.R. lhe toca no ombro e lhe pergunta:
- “ Que está aí a fazer”?
- “ Estou a dar água ao boi.”
Pernas para que te quero, só que ao virar da esquina sou apanhado pelo Cabo da G.N.R. que entretanto já lá tinha mais dois músicos e os seus respectivos instrumentos, o guitarras e o pandeiretas.
Tiraram-nos os cintos das calças e fomos presos aos pares para que não pudéssemos fugir; na altura a G.N.R. não tinha jipes, deslocava-se de táxi e fomos os quatro presos e os quatro soldados enfiados no táxi, como sardinha em lata, podem imaginar o conforto!..
Na viagem a caminho do posto passava-se á porta da casa do Ti Zé André e este pede ao G.N.R.
-“ Senhor guarda deixe-me ir dizer á minha mulher que vou preso.”
-“ Tivesse-lhe dito antes de ir para lá.”
Chegados ao posto meteram-nos logo no calaboiço que era pequeno para uma pessoa, quanto mais para quatro, mas lá nos aconchegamos, enquanto a G.N.R. voltava ao local do crime para verificar se tudo estava serenado o que era verdade, estava tudo tão calmo que não se ouvia o zumbido de uma mosca.
De regresso ao posto a G.N.R. começa com as inquirições.
A pergunta era igual para todos:
Quantos eram?
Quem eram?
Mal seria dizer que não conhecia ninguém, portanto sempre se denunciava dois ou três e o seguinte três ou quatro, mas o Ti Zé André a troco de promessas, denunciou mais de quinze, só que se esqueceu dos seus três filhos que também faziam parte da festa.
Terminadas as inquirições, já por volta das quatro da manhã, fomos libertados e toca a percorrer seis kilometros a pé que era a distância que separava a Vila da localidade dos festejos.
No dia seguinte a G.N.R. inicia as intimações com vista a apurar o maior número possível de participantes na chocalhada e parece que não escapou um.
Concluídas as intimações, são todos avisados a comparecer no posto da G.N.R. no dia “D.”
Aí compareceram mais de cento e cinquenta pessoas que foram “despejadas” no espaço livre nas traseiras do posto.
Todos reunidos como ovelhas no redil, aparece o primeiro-cabo que era o comandante
do posto e começa a prelecção com ameaças à mistura, citando alguns artigos judiciais, visando em primeiro lugar os autores da ideia, mas que o assunto poderia ficar encerrado mediante o pagamento de cinquenta escudos de multa a cada um.
Cinquenta escudos na Época era muito dinheiro, se considerarmos que cada trabalhador ganhava doze ou treze escudos por dia.
Levantou-se um grande burburinho; ninguém paga, ninguém paga, não é justo, mas alguns mais abastados e para se verem livres da situação começaram a pagar e atrás de uns vão os outros e acabaram todos por pagar e a G.N.R. acabou por arrecadar uma boa maquia, com o Ti Zé André a ser o mais castigado pois pagou por ele e os seus três filhos.
Custou-nos cara a diversão, tudo não passou disso mesmo, uma diversão, vejamos:
A Senhora Ligeira divertiu-se com o amante e vice-versa.
Nós, jovens com todas as hormonas a funcionar e a vontade de descobrir o Mundo, e novos desafios divertimo-nos á grande.
A própria autoridade também se deve ter divertido á sua maneira, até se constou que ainda beberam umas cervejas á conta da chocalhada, dizem terem visto um soldado ir a um café buscar umas quantas cervejas fresquinhas e pagar com uma nota de cinquenta escudos.
Só o pobre do Senhor Ligeira é que perdeu com esta história e não deve ter achado boa ideia a história da chocalhada, mas ele tinha um coração de chocolate e adorava a sua cara-metade.
Venâncio Rosa
Mas, o que era a chocalhada? A chocalhada era:
Quando era sabido que uma mulher traía o marido e este aceitava continuar ou voltar a viver em comunhão com a”dita cuja” a rapaziada solteira, porque os casados tinham medo de “cuspir para o ar” juntavam-se e munidos dos mais variados instrumentos musicais e tudo o mais que fizesse barulho, tais como chocalhos (daí o nome chocalhada), guizos, tambores, concertinas, guizalhadas, violas, violinos, pandeiretas, latões, tambores, trombone, etc, etc, juntavam-se ao inicio da noite e até de madrugada reuniam-se à porta dos visados e toca, quanto mais barulho melhor; incluíam-se ainda quadras soltas que satirizavam a atitude dos visados.
E esta diversão para uns e pesadelo para os outros, durava uma semana ou mais, era até não terem mais vontade de chatear, ou serem impedidos de o fazer, como foi o caso.
Ligeira é o nome da única chocalhada a que o relator assistiu e colaborou.
Que aconteceu no caso Ligeira?
Ligeira era o nome pelo qual este casal era conhecido.
Um dia um amigo do Senhor Ligeira chamou-o à parte e disse-lhe:
- “ A tua mulher anda a trair-te.”
-“ Não brinques com isso:”
-“ Se não acreditas vai a tal lugar que lá os encontrarás.”
E era verdade crua e nua, lá estavam os dois - a Senhora Ligeira e o amante.
E o resultado foi: Carga de porrada na mulher e posta fora de casa, mas passados dois dias já estavam juntos de novo.
Passadas algumas semanas, os amantes não resistiram à tentação, voltaram a encontrar-se e a serem apanhados de novo; repetiu-se a receita: Nova carga de porrada na Senhora Ligeira e rua…
Na época a taberna era o ponto de encontro, o centro de convívio entre as populações e muitas vezes o centro de decisões de assuntos de interesse colectivo, não é o caso, mas o
pessoal na taberna comentava e criticava o Senhor Ligeira, que não tinha vergonha em voltar a viver com aquela mulher.
Aí o Senhor Ligeira num rasgo de coragem disse:
- “ Se voltar a juntar-me com aquela puta podem fazer-me uma grande chocalhada:”
Dito e feito, três dias depois a união conjugal realizou-se.
E agora?
Na taberna comentava-se:
O Ligeira disse que se voltasse a juntar-se aquela p… podíamos fazer-lhe uma chocalhada e nós não vamos fazer nada?
Salta o Desidério: “ Eu tenho lá em casa umas guizalhadas dos cavalos e mais uns chocalhos das vacas e mais algumas coisas que posso emprestar".
O Joaquim da Fátima também arranjou mais alguns instrumentos, mais uma latas e latões velhos e arranjou-se uma orquestra quase perfeita.
-“E agora?”
- “Eles vêm no comboio das 19 horas, vamos esconder-nos atrás da estação e quando eles pegarem estrada acima, nós fazemos o acompanhamento atrás deles.”
Dito e feito, chega o comboio, sai o casal Ligeira e lá vão eles estrada fora em direcção ao povoado e “pimba” cai a malta toda em cima deles e toca a rufar.
Até chegarem a casa foi um consolo que se prolongou noite dentro.
No segundo dia, “ balde de água fria.”
O pessoal foi de novo para trás da estação, mas o casal Ligeira fez-nos um manguito e não vieram no comboio.
Então o pessoal pensou:
Não vem neste vem no outro.
Mas também não vieram no seguinte.
Ai os maganos… devem ter vindo na camioneta da carreira.
Vamos a casa deles.
E lá toca, canta, rufa, bate tambores, pandeiretas, latas e latões e os visados não dão cor da sua presença, até que um mais atrevido bate á porta e diz:
-“ Oh boi se estás aí sai cá para fora que nós queremos fazer-te uma pega de cernelha.”
A Ligeira não gostou deste atrevimento e no dia seguinte em vez de ir para o trabalho, foi para a Vila de Castro Marim e apresentou queixa na G.N.R.
Nós fomos avisados que a G.N.R. iria lá nessa noite, mas houve logo quem dissesse que nós iamos continuar, que a festa estava boa e se nós não fugirmos eles não nos podem levar todos presos.
Conjugaram-se as ideias.
Ninguém foge.
O. K. Vamos.
E assim foi.
Se na primeira noite se juntaram cerca de trinta chocalheiros, na segunda à volta de oitenta e na terceira eram esperados mais de cento e cinquenta.
Só que no inicio da terceira chocalhada, de repente, o relator vê toda a malta a fugir e quando se apercebe a razão da debandada, já era tarde para o fazer e é apanhado com a boca no trombone, assim como o Ti Zé André que é apanhado com um balde de lata com três pedra lá dentro e chocalhava, chocalhava, quando o soldado da G.N.R. lhe toca no ombro e lhe pergunta:
- “ Que está aí a fazer”?
- “ Estou a dar água ao boi.”
Pernas para que te quero, só que ao virar da esquina sou apanhado pelo Cabo da G.N.R. que entretanto já lá tinha mais dois músicos e os seus respectivos instrumentos, o guitarras e o pandeiretas.
Tiraram-nos os cintos das calças e fomos presos aos pares para que não pudéssemos fugir; na altura a G.N.R. não tinha jipes, deslocava-se de táxi e fomos os quatro presos e os quatro soldados enfiados no táxi, como sardinha em lata, podem imaginar o conforto!..
Na viagem a caminho do posto passava-se á porta da casa do Ti Zé André e este pede ao G.N.R.
-“ Senhor guarda deixe-me ir dizer á minha mulher que vou preso.”
-“ Tivesse-lhe dito antes de ir para lá.”
Chegados ao posto meteram-nos logo no calaboiço que era pequeno para uma pessoa, quanto mais para quatro, mas lá nos aconchegamos, enquanto a G.N.R. voltava ao local do crime para verificar se tudo estava serenado o que era verdade, estava tudo tão calmo que não se ouvia o zumbido de uma mosca.
De regresso ao posto a G.N.R. começa com as inquirições.
A pergunta era igual para todos:
Quantos eram?
Quem eram?
Mal seria dizer que não conhecia ninguém, portanto sempre se denunciava dois ou três e o seguinte três ou quatro, mas o Ti Zé André a troco de promessas, denunciou mais de quinze, só que se esqueceu dos seus três filhos que também faziam parte da festa.
Terminadas as inquirições, já por volta das quatro da manhã, fomos libertados e toca a percorrer seis kilometros a pé que era a distância que separava a Vila da localidade dos festejos.
No dia seguinte a G.N.R. inicia as intimações com vista a apurar o maior número possível de participantes na chocalhada e parece que não escapou um.
Concluídas as intimações, são todos avisados a comparecer no posto da G.N.R. no dia “D.”
Aí compareceram mais de cento e cinquenta pessoas que foram “despejadas” no espaço livre nas traseiras do posto.
Todos reunidos como ovelhas no redil, aparece o primeiro-cabo que era o comandante
do posto e começa a prelecção com ameaças à mistura, citando alguns artigos judiciais, visando em primeiro lugar os autores da ideia, mas que o assunto poderia ficar encerrado mediante o pagamento de cinquenta escudos de multa a cada um.
Cinquenta escudos na Época era muito dinheiro, se considerarmos que cada trabalhador ganhava doze ou treze escudos por dia.
Levantou-se um grande burburinho; ninguém paga, ninguém paga, não é justo, mas alguns mais abastados e para se verem livres da situação começaram a pagar e atrás de uns vão os outros e acabaram todos por pagar e a G.N.R. acabou por arrecadar uma boa maquia, com o Ti Zé André a ser o mais castigado pois pagou por ele e os seus três filhos.
Custou-nos cara a diversão, tudo não passou disso mesmo, uma diversão, vejamos:
A Senhora Ligeira divertiu-se com o amante e vice-versa.
Nós, jovens com todas as hormonas a funcionar e a vontade de descobrir o Mundo, e novos desafios divertimo-nos á grande.
A própria autoridade também se deve ter divertido á sua maneira, até se constou que ainda beberam umas cervejas á conta da chocalhada, dizem terem visto um soldado ir a um café buscar umas quantas cervejas fresquinhas e pagar com uma nota de cinquenta escudos.
Só o pobre do Senhor Ligeira é que perdeu com esta história e não deve ter achado boa ideia a história da chocalhada, mas ele tinha um coração de chocolate e adorava a sua cara-metade.
Venâncio Rosa
grande malandro foste apanhado com a boca no trombone.
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