O MALAGUETA




Castro Daire é uma vila Beirã sede do Concelho com o mesmo nome e tem mais ou menos 4500 habitantes. Tem uma Igreja Matriz muito bonita que existe desde o Século XVIII.

Como boa e fiel companheira tem a Serra de Montemuro, que além de lhe oferecer abundante e gratuitamente oxigénio para purificar o ar dos seus habitantes, serve ainda para reconfortantes passeios pedestres. Como todas as Serras esta também é linda e agora com os seus moinhos eólicos a enfeitá-la está mais bela e a fazer-me recordar sempre que a vejo de novo, o D. Quixote de La Mancha. Há vários miradouros de onde nos é oferecido paisagens de sonho e fantasia, pela sua altitude realço o do Monte de São Lourenço a uma altitude de quase mil metros oferece-nos uma paisagem deslumbrante, que jamais será esquecida, por quem teve o privilégio de a contemplar. Castro Daire tem igualmente um clube de futebol que é o famoso CASTRENSE.

Carvalhais é uma elegante freguesia do Concelho de S. Pedro do Sul. Com uma população á volta dos 1.800 habitantes, tem como garante de qualidade de vida das suas populações, o ar puro que vem purificado pela floresta da Serra da Arada e pelas suas águas cristalinas e fresquinhas que jorram por todo o lado, provenientes da mesma Serra. É uma freguesia tipicamente rural, mas com traços de alguma Industria. Tem uma escola profissional que é muito útil para as jovens populações das redondezas aprenderem uma profissão. Tem no Pisão um excelente parque florestal, onde é possível passar um dia de sonho, grelhando o seu próprio almoço nos grelhadores disponíveis para esse efeito, degustá-lo nas mesas igualmente disponíveis e por fim se quiser lavar a loiça também o poderá fazer porque há lava loiças. Para os nadadores e não só, há uma piscina, para os campistas um parque de campismo e para os apreciadores da natureza há trilhos que estão ávidos de o ver por aquelas paragens. Também Carvalhais tem um Clube de futebol, o mini-glorioso CARVALHAIS FUTEBOL CLUB.

Num lindo, quente e solarengo Domingo de Verão dos anos setenta, estavam reunidas todas as condições para se realizar um bom, renhido e disputado jogo de futebol entre o Castrense (Castro Daire) e o Carvalhais.

O dia estava esplendoroso, de um Sol lindo quente e luminoso, a convidar as pessoas a sair de casa, a ir passear, tomar ar fresco. Os campos haviam-se vestido de gala, estávamos no pico do Verão, as árvores ainda a gozarem das muitas águas que beberricaram em abundância no longo Inverno, estavam verdinhas, viçosas e carregadas dos seus mais variados e deliciosos frutos. Os campos ofereciam-nos milhares de flores que com as suas mais variadas cores e formas nos presenteavam com um colorido perfeito, um quadro digno de um grande artista que é a Natureza. Por todo o lado campeavam papoilas na sua linda cor vermelha, que em conjunto com o roxo dos cardos, urze e lírios a branca e amarela dos malmequeres, tojo e mimosas, o verde das giestas, dos trevos e rosmaninho; todo este espectáculo da natureza estava ali para ser apreciado, só era preciso sensibilidade para o fazer; no ar havia harmonia e paz; no rosto dos adultos alegria e boa disposição; as crianças que brincavam em grupo estavam encantadas, contentes e felicíssimas. Era o paraíso na Terra.

Durante a semana, o tema de conversa entre os habitantes de Castro Daire era o jogo de Domingo, entre os eternos rivais e á medida que o dia do jogo se aproximava a excitação ia aumentando, até atingir o clímax às 16 horas, era a hora do inicio do jogo.

O Castrense tinha muitos adeptos, tantos quantos os seus habitantes; ali não havia misturas, não havia quem fosse do Benfica, Sporting ou Porto, ali toda a gente era do Castrense, ganhasse ou perdesse isso não contava, o amor ao Clube que representava o seu povo era o mais importante para aquelas gentes Serranas.

A cumplicidade entre os adeptos e o Clube era tão grande que havia mesmo uma pequena claque composta por raparigas adolescentes e outras mais maduras, que em dia de jogo não se cansavam de gritar a apoiar a sua equipa e os seus jogadores durante os noventa minutos, havia mesmo um prémio para quem marcasse golos; estava combinado que quem marcasse um golo só tinha que ir comemorá-lo com a claque das fãs e seria recompensado com um delicioso beijinho, só não sabia de quem porque isso era combinado entre elas, mas que havia beijinho isso era garantido.

A contar para o Campeonato Distrital da Associação de futebol de Viseu teve lugar então esse tão aguardado jogo que já não tinha grande significado em termos classificativos, já que ambas as equipas estavam a meio da tabela, a época estava quase a terminar e era sabido que ambas as equipas não iam subir nem descer de divisão, nenhuma delas podia ser campeã e não se ia jogar naquele dia nada de importante, quando muito só o prestigio estaria em jogo, ou o orgulho de sair vencedor da contenda o que pesava aqui mais ainda seria os beijinhos das fãs, esses sim eram importantes, davam prazer e era um prémio apetecível e muito apreciado pelos avançados.

O jogo iniciou-se à hora prevista, tendo como árbitro o Ernesto Borrego e da nossa equipa recordo que jogavam o Mário, Rui, Gastão, Quim que era o central e o Jorge que era o guarda- redes e eu o Pinto mais conhecido pelo malagueta, os outros nomes já não recordo.

Da equipa do Carvalhais só me lembro do nome do guarda-redes e já vão saber a razão porque não podia esquecer este nome…

O jogo ia decorrendo num ritmo vivo e competitivo mas o resultado 0-0 mantinha-se até aos 85 minutos altura em que há um livre próximo da grande área do Carvalhais. O livre é marcado com muita força para a baliza e o guarda redes Aurélio defende como pode mas para a frente da sua baliza, eu que era o avançado e andava por ali a cheirar o golo, sempre com o beijinho das fãs na mente, faço uma corrida e consigo chegar á bola uns segundos antes do guarda-redes que entretanto vinha também em corrida a tentar recuperar a bola e quando ele vai a agarrá-la eu com a mão dou-lhe um pequeno toque para cima, desviando-a do seu alcance e quando a bola vem a cair eu marco o golo de cabeça, tudo isto feito com uma rapidez incrível; o árbitro não viu a minha mão e validou o golo; o Aurélio ficou furioso e corre para o árbitro a reclamar que tinha sido um golo irregular, que tinha havido mão, mas como o árbitro não lhe satisfez a sua pretensão de anular o golo, vem numa correria louca na minha direcção com intenção nítida de me agredir, eu que entretanto corria para as minhas fãs para ir receber o saboroso prémio, vendo aquela agressividade toda mudo o rumo da corrida mas para junto do árbitro que com a sua autoridade e a protecção dos meus colegas de equipa lá evitaram que o Aurélio me “ chegasse a roupa ao pêlo,” se ele pudesse comia-me equipado com botas e tudo, ele bem tentava agarrar-me mas não conseguia, por alguma razão me chamavam o malagueta, é que eu tinha picante por todo o corpo e nunca me ia deixar agarrar por um guarda-redes, não fosse eu um avançado, mas que me estragou a comemoração com as minhas fãs lá isso estragou, mas eu marcava muitos golos e havia ainda muito que comemorar em jogos futuros.

Resultado final: Castrençe 1 Carvalhais 0

Marcador do golo: Malagueta









Mário Miranda

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