A VIDA DE UM LUTADOR



Joaquim Júlio (J.J.) foi uma criança nascida num lugar perdido na Serra Algarvia pertencente ao Concelho de Castro Marim, Vila Medieval, primeira sede da Ordem de Cristo e muito orgulhosa do seu Castelo, onde na antiguidade se passava toda a vida da comunidade e hoje recebe milhares de visitantes; fica também muito vaidosa com as festas de verão que aí se realizam e que merecem uma visita; Conta também com uma outra fortaleza, denominada forte que não pode ser visitado devido ao seu estado de degradação.

Voltando ao J.J. que aos cinco anos já ajudava na lide do campo (trabalho infantil) ora fosse a apanhar figos, alfarrobas, amêndoas ou a correr atrás dos porcos.

Essa criança aos sete anos foi para a escola e terminada a quarta classe (como não havia mais) só lhe restou dedicar-se às tarefas do campo, atrás de uma junta de bois, agarrado ao cabo de uma enxada, foice ou qualquer outro utensílio doméstico; mas como os 2$50 que a Mãe lhe dava ao fim de semana não chegavam para pagar o bilhete de entrada na sala de baile lá da aldeia, aos 12 anos resolveu procurar a vida e foi trabalhar (cavar vinha) para as terras de um vizinho que lhe pagava 12$00 por dia, do nascer ao pôr-do-sol, quando este se deixava ver, caso o Astro Rei estivesse encoberto pelas nuvens era até ao escurecer.

Da semanada retirava o correspondente a um dia de trabalho para os seus lazeres e entregava o restante (correspondente a cinco dias) à Mãe e bastante jeito lhe fazia.

Aos 15 anos, insatisfeito com a vida do campo, procura trabalho na rudimentar construção civil que na altura começava a despontar; ai já era mais bem pago, 15$00 diários e só trabalhava 8 horas; Prosseguiu nestas tarefas e até gostava, pois o mestre de quando em vez punha-o a chapear umas colheres de massa à parede, na via de aprender o ofício.

O tempo passa depressa e o J.J. foi chamado às sortes (inspecção militar) corria então o ano de 1961 e foi apurado para servir na Marinha por quatro anos. Só que ao fim dos quatro anos o despacho ao requerimento para a aposentação era igual para todos “aguarde oportunidade”; recordo que dada a guerra no Ultramar até os coxos iam lá parar; mas o J.J. teve mais sorte, apesar de estar inscrito como voluntário para serviço no Ultramar, nunca foi mobilizado.

Mas a vida por cá era difícil. Em 1974 um militar no posto de marinheiro ganhava 1.300$00 ilíquidos por mês, levava para casa mil cento e tal escudos que depois de pagar a renda da casa ficava com “toma lá nada”; muitos militares sobreviveram na altura com a tigela da sopa, a posta do bacalhau ou um bocado de nervos de carne que o despenseiro lhe cedia, mas a troco do “desabono,” que o mesmo é dizer, não jantar a bordo.

J.J. lá continuava levando a sua vida como podia, de nada lhe valia lamentara-se, a Pátria era madrasta para a maioria dos seus filhos; mas uma bela tarde de Verão J.J. repara na azáfama de um seu colega e entra com ele:

-“ Parece que estás atrazado para o emprego colega ?

E não é que era mesmo verdade.

Lá o bom do Ferreira, assim se chamava ele, explicou-lhe o que se passava:

- Que andava a fazer umas horas na Lisnave e começou a entusiasmar o J.J. no sentido dele fazer o mesmo, que precisavam lá de mais pessoal etc, etc,.

- O.K. O.K. o problema é que eu não sou serralheiro, mecânico, canalizador, soldador, ferreiro, montador de andaimes, eu não sei fazer nada disso.

- Nem é preciso desde que não sejas parvo.

- Vais comigo que eu apresento-te ao encarregado da ( MOMPOR) assim se chamava a firma de Subempreiteiros.

Após alguma resistência lá foram e após a apresentação J.J. foi logo levado ao escritório para fazer a inscrição, de seguida para a ferramentaria para receber a caixa da ferramenta onde se iniciaram as primeiras dificuldades, dado este não conhecer metade dos nomes das ferramentas, mas com a ajuda do Amigo lá passou o primeiro teste.

Depois veio a ordem para se apresentar no navio H que estava na doca 13 a maior do estaleiro.

Chegado ao navio tinha que procurar o Sr. Figueiras que era o encarregado e chefe de turno que lhes iria distribuir o que fazer. Procura, espera, procura, espera e lá apareceu o Sr. Figueira que os mandou esperar no portaló.

J.J. pouco habituado aqueles barulhos de oficina, tremia por todos os lados e não era de frio, era com medo do que lhe dessem que fazer, mas o Amigo lá o animava:

- “ Fica descansado que não vais sozinho, vão sempre equipas de dois e normalmente põem sempre um operário da casa com um outro dos empreiteiros.”

Mas, apesar da força que o seu Amigo lhe dava, J.J. pensou várias vezes em abandonar o barco e ir embora para casa; passadas duas horas e meia lá apareceu o Sr. Fonseca que ficou com o J.J. como seu ajudante.

No fundo da doca 13, o Sr. Fonseca ordena ao J.J. para ir ligar as mangueiras do maçarico, dizendo:

- “ Do outro lado do navio está uma carocha, liga lá estas mangueiras.”

Aqui começam as complicações.

J.J. pega nas mangueiras e lá vai para o outro lado do navio à procura da carocha.

J.J. não sendo parvo de todo, reparou que havia muitas outras mangueiras por ali espalhadas, seguindo-as lá encontrou a carocha que tinha um lugar vago; havia uma mangueira preta e outra vermelha, a diferença de cores devia dizer qualquer coisa, teria que ter isso em atenção e assim foi, uma enroscou á primeira, mas a outra não havia maneira, até que J. J. já desesperado diz: “ se não enroscas para este lado hás-de enroscar para o outro e não é que acertou. Ganhou a primeira batalha. É que uma era esquerda e a outra era direita.

J.J. volta para junto do seu mestre que tenta acender o maçarico e “toma lá nada”.

-Abristes o Gás?

- Vou ver.

- Ora porra! … Aquilo tem que se abrir…e agora abro muito ou pouco? Para não falhar abro pouco.

-Já está Sr. Fonseca.

Nova tentativa para acender o maçarico que desta vez acendeu de facto só que a potência era pouca, J.J. não havia aberto a torneira o suficiente.

- Vai lá ver se a mangueira está partida?

Lá vai J.J. de novo à carocha e dá quantas voltas o manípulo tinha, na mente pairava o receio; “ se rebentar é só uma vez.”

Segunda batalha ganha, o maçarico já funcionava; entretanto apitou para a bucha e lá fomos todos dar ao dente, era o meu primeiro jantar no estaleiro.

De regresso começa então o trabalho a sério, tinha de ser substituída uma chapa no costado do navio; ora segura aqui neste grampo enquanto eu pingo (pingar é soldar) ora dá cá aquela palmeta, segura aqui, bate ali, pouco se fez, chegou o Sr. Figueira a perguntar se queriam prolongar o horário até as oito da manhã? Aí é que resultava porque nesse horário os dólares caiam aos montes.



Para compor as coisas J.J. lá foi dizendo ao Sr. Fonseca:

- “ Eu não percebo nada disto mas preciso muito dos dólares que aqui se pagam.”

-“ Já me tinha apercebido disso, não és o único, enquanto andares comigo estás safo.

Recordando que um marinheiro levava para casa mil cento e poucos escudos/ mês e que na Lisnave se fizesse 3 ou 4 prolongamentos na quinzena arriscava-se a levar 8 a 10 contos, o que fazia 15 a 20 contos por Mês, nada menos que 14 a 15 vezes os míseros tostões militares.

O encerramento definitivo da Lisnave foi uma catástrofe para a margem Sul do Tejo.

É inacreditável como se cometem crimes desta natureza!

Com a Lisnave havia trabalho e a região era próspera, hoje não há trabalho e como consequência não há Pão.

Ali nas redondezas todo o comércio funcionava bem e em especial as cervejarias, marisqueiras e os bares nocturnos sobretudo a partir da uma da manhã.

Quando acabou o trabalho de serralheiro montador para que tinha sido contratado,” foi de balão” despedido como tantos outros, mas J.J. não cruzou os braços e de seguida mudou de profissão, era mecânico, tubista e quando este trabalho acabou mudou para serralheiro mecânico conforme as necessidades assim J.J.mudava de profissão.

NECESSIDADE A QUANTO OBRIGAS!...

                
                                 Venâncio Rosa

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