Aventura africana











PERIPÉCIAS NA VIDA DE UM HOMEM




Comprar casa continua ainda hoje a ser o quebra-cabeças da juventude e eu não fugi á regra; só que agora os juros do dinheiro estão na ordem dos 3 ou 4 %, eu cheguei a pagar mais de 30 % ao ano, (quanto mais pagava mais devia) e lamentava-me perante os meus colegas de trabalho.

Num belo dia solarengo de Outono aparece-me um colega de trabalho todo eufórico, protector e conselheiro, com um jornal debaixo do braço e diz-me: “ Olha, está aqui a tua safa. “

Era um anúncio onde pediam empregados de contabilidade para Moçambique.

“ Eh… pá… eu até estava interessado, mas não sou contabilista, “ apesar de ter uns conhecimentos da matéria, adquiridos na frequência de um curso da especialidade, quando estive em França, aquando da construção das fragatas classe João Belo, para a Marinha Nacional Portuguesa.

Os meus colegas tanto me encheram a cabeça que eu respondi ao anúncio, e no dia seguinte tinha um telegrama que dizia: “ QUEIRA COMPARECER NA AV. 5 DE OUTUBRO Nº 8 CONTACTE O CMT. VASCONCELOS.”

Fiquei em pulgas… e o CMT. Vasconcelos não me saia da cabeça… será que é o Sr. Comandante que eu tive aquando da Comissão de serviço em França, nos anos sessenta? Depois lá vinha outra interrogação: “ Mas o que é que o Com. Vasconcelos, Oficial superior da Marinha de Guerra Portuguesa tem a ver com o recrutamento de pessoal para Moçambique, ainda por cima agora que Moçambique está independente? Durante uns dias travei uma verdadeira batalha mental, de dúvidas e interrogações, até ao dia em que me apresentei na Av. 5 de Outubro; Chegada lá anunciei-me com voz ansiosa e tremula e disse que queria falar com o Sr. Com. Vasconcelos; não me vi ao espelho, mas devia estar pálido e deslocado do meu ambiente, tal a cara grave e de respeito que a recepcionista fez e com voz de comando disse:

-- “ Entre, sente-se que eu vou informar o Senhor Comandante.”

Não tardaram dois minutos e surpresa das surpresas estava na minha frente o meu ex- chefe dos tempos de França e modéstia á parte até nos tínhamos entendido muito bem.

--- “Então meu rapaz o que te traz por cá?

--- “ Ora senhor Comandante, peripécias da vida de um Homem!

---“ Conta lá… então queres ir para Moçambique?

---“ Na realidade o que eu quero é pagar a casa que comprei e se para me livrar desse encargo tiver de ir para Moçambique, vamos a isso…

---“ Olha,estás com sorte, está cá agora o chefe da contabilidade, desenrasca-te com ele”, enquanto se afasta e me deixa sozinho no seu gabinete de trabalho, um amplo salão, ricamente mobilado e de paredes ornamentadas com quadros de barcos de guerra e outras pinturas de Oficiais de marinha. O meu imaginário rodopiava a quinhentos á hora, o meu cérebro estava atento e sensível ao mais pequenino movimento ou ruído e receptivo a captar qualquer sinal que influenciasse pela positiva o êxito da entrevista; passados talvez dois minutos aparece-me um Senhor com um grande e farfalhudo bigode que metia respeito a qualquer um a uma distância de Kilometros.

---“Então é o Sr. que quer ir para Moçambique?

--- “ Se tiver essa sorte…”

---“ Então e como é que estamos de Contabilidade?

---“ Eu… bem… bom… o Senhor Comandante Vasconcelos conhece-me bem, dos tempos de França, não sou nenhum profissional especializado mas cumprem-se as orientações.”

---“Bom… bom… o meu nome é Alves e nós lá orientamos o resto.”

Entretanto entra na sala o Comandante Vasconcelos.

---“ Então chegaram a acordo?”

---“ Assina-se o contrato em Moçambique.”

---“ Então quando é que queres ir rapaz?”

---“ Estamos nos princípios de Dezembro, gostaria de passar cá o Natal e o Ano Novo.”

---“Parece-me que afinal não precisas assim tanto de dinheiro? Olha se fores até ao dia 15 tens direito ao mês de Dezembro por inteiro e ainda ao décimo terceiro mês, agora escolhe.

Ficou então agendado o dia 8 de Dezembro de 1975.

Tratadas todas as burocracias recebo ordens para me apresentar no aeroporto da Portela pelas 17 horas desse dia; iriam comigo mais dois companheiros, o Sr. Teodoro e o Sr. Barbosa; teríamos de fazer um transbordo em Londres e depois seguiríamos até ao fim da viagem que seria Blantaier, onde estaria o avião da empresa Cahora Bassa que nos conduziria à Vila do Songo Sede da empresa.

Só que depois de duas horas em Londres, embarcamos num avião da BRITISH AIR WAYS que nos levaria ao Malawi, mas antes tivemos de aterrar de emergência no Cairo, ainda hoje não sabemos porque razão isso sucedeu; passadas duas horas retomamos a rota para o Malawi, fazendo primeiro escala em Cartum, retomamos o voo da segunda escala que seria Dar-es-Salam, seguindo depois para Blantaier, onde chegámos já quase de noite e com mais de 24 horas de baptismo de voo.

Propositadamente deixamos sair todos os passageiros para que, sendo os últimos fossemos fácilmente reconhecidos pela representante da empresa, mas este não nos vislumbrando deu ordem de saída ao avião “ teco-teco” de 5 lugares e nós ficamos assim abandonados no aeroporto; o pessoal de serviço, que nos viu em dificuldades e perdidos dirigiu-se-nos em Inglês; nós não os compreendiamos, só diziamos Cahora Bassa; para compor melhor o ramalhete faltou uma mala na bagagem do colega Teodoro e com mais ou menos dificuldades, lá nos conseguimos fazer entender, ficou feita a reclamação, que diga-se de nada valeu, porque a mala nunca apareceu.

Entretanto um funcionário do aeroporto que tinha ido telefonar, possivelmente para alguém de Cahora Bassa, encaminhou-nos para uma velha Ford Transit quase cheia de nativos, que de seguida iniciou viagem e nós no meio daquele pessoal, sem perceber a língua, sem saber para onde iamos, era de loucos, as coisas que se fazem quando somos jovens!..

No horizonte era visível a despedida do dia, tudo quanto a nossa vista alcançava era um Céu vermelho, a anunciar mais calor Africano para o dia seguinte, até aqui tudo bem, o pior foi quando esta paisagem é substituída pela noite que entretanto chegou e tudo era negro à nossa volta, dentro da carrinha só se viam os dentes dos nativos, aí sim, o nosso coração ficou mais pequenino e não só o coração!..

Pouco tempo depois começamos a ver ao longe umas luzinhas muito pequeninas, que iam ficando cada vez maiores e mais perto, era a Cidade ali tão perto, era o oásis perfeito e nós a dizer para os nossos botões “ desta já nos safamos “; a carrinha parou em frente ao melhor Hotel da Cidade e recordo que a ansiedade, os nervos e o medo do desconhecido era tanto que eu sem agradecer a boleia nem me despedir dos companheiros de viagem me dirigi de imediato para o Hotel.

Já no Hotel e enquanto fazíamos o check-in apareceu o representante da Empresa que nos levou para uma vivenda da Companhia onde deixámos as nossas malas, tomamos um refrescante duche e fomos jantar.

O dia seguinte foi livre para ir conhecer a Cidade e às 16 horas fomos levados para o aeroporto, para retomar o destino do dia anterior; Aí já tudo correu sobre rodas, tínhamos um intérprete que nos desbravava o caminho do entendimento entre os povos.

Embarcámos nesse pequenino e simpático avião a que dão o nome de “Teço-Teco” e duas horas depois estavámos no Songo-Cahora Bassa o nosso destino final e a esperança de ali arranjar as notinhas necessárias para pagar a casinha que tinha entretanto sido abandonada algures na margem Sul do Tejo.

Fomos recebidos pelo Relações Públicas, que nos levou ao Bar e ordenou que a troco de uma rubrica num papel vulgar podíamos comer e beber do que se quisesse.

Seguiu-se a distribuição dos quartos e no dia seguinte foi a apresentação laboral.

Tudo funcionava bem, só que o isolamento era quase total, a Cidade mais próxima era Tete a 120 Km e se tivermos em conta que estamos em África sem estradas de jeito, para percorrer esses kilómetros era necessário meio dia.

Nestas condições de isolamento os nossos passatempos eram festas de confraternização e amizade entre os colegas, almoços em casa de um que de seguida era nosso hóspede, havia uma piscina olímpica à disposição, porque água não era problema nem necessário pagá-la, havia-a ali em abundância no rio Zambeze.

Estávamos pois na construção da Barragem de Cahora Bassa, essa grande e imponente obra da Engenharia Portuguesa; a sua albufeira é a quarta maior de África, tem um comprimento de 250Km, 38Km de afastamento entre margens, ocupa cerca de 2.700Km2 e tem uma profundidade média de 26 metros; é actualmente a maior produtora de electricidade em Moçambique, abastecendo também a África do Sul e o Zimbabué. Esta grandiosa obra é um exemplo vivo da nossa capacidade e saber nos domínios da hidráulica, estruturas e outras engenharias.

Para além das festas caseiras, nas quais os Alemães eram os que davam cartas, com os seus vitelos inteiros assados no espeto e as suas variadas bebidas e em fartura.

Para mitigar o tempo e dar asas á imaginação, certo dia um grupo de colegas engendraram fabricar uma jangada, a que chamavam “catamaran”; era composta por 16 bidons de 200 litros, vazios, ligados uns aos outros, encimados por uma cobertura de tábuas que fazia de soalho, equipada com um motor Wolkswagen, eixo de transmissão, hélice e tudo o mais para poder navegar.

Só que a transmissão, por falta de flexibilidade, sempre que virava para a esquerda ou direita, partia e lá ficava a jangada á deriva.

Mas,” os engenheiros da jangada “não se davam por vencidos e inventam um cardan para resolver o problema da flexibilidade e convencidos que dessa vez é que ia funcionar, resolveram convidar meia dúzia de amigos para dar um passeio de catamaran pela barragem, e como bom Portuga lá vou eu, a minha Rosa e o meu Pedro na altura com 7 anos e imagine-se até ia uma grávida a bordo, a isto pode chamar-se coragem, simplicidade, inocência, aventura, irresponsabilidade, era assim nesses tempos…

Partimos do cais de amarração e tudo funcionava às mil maravilhas, por aqueles mansos canais o nosso catamaran navegava como se fosse o Queen Mary até chegar em frente ao paredão da barragem, altura em que impera mudar de rumo e voltar para trás, porque entretanto já se ia fazendo tarde e o pôr do Sol anunciava-se e a meio da manobra ouve-se um barulho já conhecido dos nossos engenheiros catamaraneses, o veio de transmissão voltara-se a partir e ficamos á deriva.

Por perto havia um nativo numa piroga, feita do tronco de uma árvore, que pescava para o seu sustento e da sua família e fazíamos tudo para ele se aperceber que estávamos em dificuldades e necessitávamos da sua preciosa ajuda. Todos gritávamos com quanta força tínhamos, uivávamos e assobiavámos até que o bom do black lá ouviu e veio em nosso auxilio; mas como poderia um pobre africano numa frágil piroga rebocar um catamaran cheio de turistas?

Passamos um dos nossos para a piroga com uma corda comprida e distanciaram-se da jangada na tentativa de a puxar até á margem; este gesto foi repetido centenas de vezes e a jangada pouco se mexia.

Resolveu-se então tirar as tábuas do soalho e com elas remar até á margem e assim conseguimos fugir da corrente que se fazia sentir e nos levava para o paredão da barragem, que estava com a comporta de superfície aberta (cerca de 12x4metros), era um saltinho para o outro mundo, mas com o esforço e a colaboração de todos, a calma porque ninguém desanimou nem entrou em pânico e era já noite cerrada quando conseguimos chegar á margem onde havia um enorme talude, coberto de vegetação rasteira, capim, pequenos arbustos tudo muito verdinho e viçoso porque a água esta ali à disposição de todos os seres.

Lá decidimos que dois companheiros nossos, o Feijó e o Freitas subissem a pequena montanha e fossem ao ancoradouro, onde estavam estacionados os automóveis e fossem pedir ajuda, e ela só chegou por volta da meia-noite, por intermédio do Ivan, um Alemão nosso Amigo, que com a sua lancha rápida lá nos safou de males piores.

Moral da história:



Não te metas sapateiro



Em grande ou pequenino



Armado em Engenheiro



Nem a tocar Violino

 
 
 
                   Venâncio Rosa

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