COISAS DO DIABO








Na minha aldeola e circundantes no concelho de Castro Marim, na minha infância, princípios da década de cinquenta, o principal divertimento eram os bailaricos do fim-de-semana, uma vez que o cinema só existia na Vila, era de má qualidade e quase inexistente.

Só que chegada a quaresma, mandava a tradição que não houvesse bailaricos.

Mas, não sei como, o povo achou outra maneira de diversão e de passar o tempo:” o Terço.”

De índole religiosa, o terço era organizado por algumas beatas de carisma Cristão e constava de:

Arranjava-se uma casa vazia e a maior sala era enfeitada, cobrindo as paredes com flores de papel.

Engendrava-se um altar com uma mesa grande, encimada por várias prateleiras, fazendo escada e cobria-se com lindas toalhas brancas, orladas com bordados roxos.

As várias prateleiras eram preenchidas com diversos Santos e embelezadas com jarras de flores.

O cimo findava com o SENHOR CRUCIFICADO.

O Céu também era preparado, envolvendo a parte interior do telhado com um lençol branco, onde se colocavam as estrelas e a lua, feitas em papel de platina.

Recheava-se a sala com algumas cadeiras e bancos e estava pronto o nosso terço.

Só Faltava chegar a noite para que as mulheres do lugar e as suas filhas se juntassem para rezar o Terço que era basicamente uns Padres -nossos e Avés- Marias, com mais umas orações que eram ditas espontaneamente pelos assistentes.

E assim se fazia todas as noites até ao Sábado de Aleluia, que tinha Terço até á meia-noite e a partir dessa hora era baile até de madrugada.

O ritual está dado e era receita para os namoricos da Quaresma, só que nem tudo é um mar de rosas!..

Havia disputas, sobretudo porque a sala era normalmente pequena para albergar todos os namoricos, havendo disputas entre os forasteiros e os filhos da terra, chegando por vezes a haver confrontos físicos.

Como o transporte da juventude da época era a bicicleta, os filhos da terra decidiram encher as veredas de acesso ao lugar do Terço com piteiras.

Escusado será dizer que os pobres dos forasteiros tinham que regressar às suas terras com as bicicletas á mão, dando azo a que no regresso fossem corridos à pedrada.

E não era só esta patifaria; Não poucas vezes os caminhos eram atravessados por cordas quase invisíveis no escuro da noite; eram presas entre duas árvores, uma de cada lado do caminho, para assim derrubar os índios e depois, era só malhar neles!..

Mas nem tudo era mau: Entretanto na sala do Terço a rapaziada ia distribuindo umas amêndoas da Páscoa, a que de vez em quando juntavam um seixo, da praia de Vila Real, muito á semelhança das amêndoas e lá punham as Velhotas a chuchar na pedra…

Antes de chegar ao principal da história, devo ainda relatar que na sala ao lado havia outro tipo de divertimento, para os homens.

Era o jogo das cartas: O jogo predilecto era o “ sete e meio” jogo que permite a participação de vários jogadores e ao mesmo tempo.

Jogava-se a rebuçados que nesses tempos custavam meio-tostão cada um, mas jogava-se forte; havia jogadas de se apostarem 100 e 200 unidades ou mais; os rebuçados eram vendidos pelo dono da casa que assim ganhava alguns tostões; também se servia o bagacinho da terra que é como sabem o de medronho que é muito booooommmmm.

Pela discrição dá para ver que ali morava a felicidade completa, ou quase, vejamos:

Os jovens dançavam e namoravam; As beatas rezavam e subiam patamares na sua caminhada para o Céu; Os homens jogavam cartas, comiam rebuçados e bebiam o seu bagacinho; O dono da casa ganhava uns tostões; que mais pode um humano desejar para ser feliz?

E, certo dia pensamos aquilo que só lembraria ao diabo:

Não é que uma trupe de rapazes imagina entrar um dia em casa do Terço e prender um fio de nylon – invisível –á cabeça do Crucifixo, passar o fio por entre as telhas, para a parte de cima do telhado, de modo a que na noite fosse possível puxar o fio dando a ilusão dentro da sala que o Crucifixo subia por obra e graça do Espírito Santo.

Tudo isto estava preparado e foi realizado quando se ouviu no interior da sala e na altura da oração:

“ OLHAI PARA O CÉU QUE LÁ ESTÁ JESÚS DE BRAÇOS ABERTOS PREGADO NA CRUZ.” Toda a gente tinha por hábito nesse momento olhar para o Céu; foi o descalabro total, quando o Cristo começa a subir sozinho; Começa tudo a gritar e o rapaz que estava em cima do telhado, assustado, larga o fio de nylon, o crucifixo vem por ali abaixo, derrubando todos os outros Santos e as jarras de flores, fazendo um estardalhaço dos demónios a que se juntavam trinta e tal pessoas, ou mais, em pânico, querendo todas sair ao mesmo tempo, por uma só porta, não muito larga, chocando com cadeiras e bancos, tendo alguns ficado com pequenas escoriações, mas nada que Deus não curasse de imediato.

Ainda houve quem tivesse ido fazer queixa na G.N.R. contra desconhecidos, mas como ninguém bufou, no tempo não havia escutas telefónicas e a P.J. não investigou, ainda hoje o caso e os seus mentores não foram descobertos.

               Venâncio Rosa

Comentários

  1. grandes malandrecos e tú da-me a impressão que também fazias parte do grupo. Velhos e bons tempos esses da juventude, altura em que tudo se fazia e tinha graça.

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