AMADEUS…AMADEUS…AMADEUS…AMADEUS…AMADEUS…AMADEUS...






O concerto tinha terminado há 15 minutos. O público extasiado e levantado das suas cadeiras não arredava pé, continuava a aplaudir e a gritar:

“Zugabe…zugabe… zugabe…zugabe…zugabe…zugabe…zugabe…zugabe…zugabe…”

Mas tudo tem o seu tempo, os seus limites e esta fabulosa orquestra há 15 minutos que o tinha atingido.

Agora era o momento de recolher o doce sabor do aplauso e ovação do exigente, crítico e conhecedor público.

Havia uma hora que o maestro dera inicio á segunda parte do espectáculo; a primeira parte tinha tido igual duração, impetuosidade, fascinação e sucesso.

Foi uma hora intensa, em que a orquestra, como que por magia, transportou o público presente, para uma outra dimensão; a do mundo da utopia, do maravilhoso, caprichoso e fantástico, onde tudo é prazer e harmoniosamente belo.

O nosso corpo manifesta-se, arrepia-se, emociona-se, comove-se e dos seus olhos deslizam pérolas de bem-estar, sinal evidente de que está a absorver o momento na sua plenitude e ele ficará gravado na memória para todo o sempre.

De salientar o solo fantástico do primeiro violino no início da segunda parte. Dotado de uma técnica perfeita, ele e o seu violino formavam um conjunto harmonioso, universal, genuíno e fantástico, deixando os espectadores encantados com a sua dádiva musical. Foi de encantar os ouvidos, purificar a alma, render o coração e guardar para sempre nos arquivos da nossa memória.

Durante esse tempo as árias iam-se sucedendo e o maestro nos seus movimentos de comando ia transmitindo a cada elemento a intensidade e o tempo certos no momento exacto; estava exausto; a camisa antes impecavelmente branca, estava agora meia de fora, o cabelo antes penteado, estava agora em desalinho, da sua cara nasciam gotículas de suor, os seus olhos brilhavam de felicidade, o seu sorriso era de prazer e angelical.

Era assim que ele vinha pela quinta e última vez, agradecer o aplauso do seu maravilhoso público, que por seu lado estava maravilhado com tudo o que tinha visto e ouvido; pela última vez cumprimentou o citado violinista com um aperto de mão e com o braço esticado e num movimento ascendente ordenou que toda a orquestra se levantasse e saboreasse com ele os últimos aplausos deste extraordinário concerto, neste excelente palco que é Berlim.

Estávamos no ano 2006 a comemorar os duzentos e cinquenta anos do nascimento de Wolfgang Amadeus Mozart, um dos maiores compositores de todos os tempos de música sacra, clássica e litúrgica, tendo sido igualmente um virtuoso pianista.

Berlim foi uma das Cidades Capitais Europeias a aderir às comemorações.

Com os seus 3,4 milhões de habitantes (a maior da Alemanha) 180 museus, 500 igrejas, mais de 5.000 bares (com cerca de 6.800 marcas de cerveja alemã) 135 teatros e 3 salas de Opera; com estas características, Berlim estava fadada para essa grande homenagem ao magnífico criador.

Assim, no dia 4 de Abril, realizou-se na Kammermusiksaal um concerto muito aguardado, divulgado, procurado e muito caro; os bilhetes mais baratos custavam 50 e os mais caros 500 euros; esgotaram-se em poucas horas e tinha o seguinte programa:

















PROGRAMA









MOZART . REQUIEM em Ré menor, K. 626



. Dies Irae



. Tuba Mirum



. Rex tremendae



. Recordare



. Confutatis maledictis



. Lacrimosa



. Domine Jesu



. Hóstias



. Sanctus



. Benedictus



. Agnus Dei







Maestro: . KARL HEINS BAUMANN



Solistas: . SUZANNE PRETZ (soprano)



. YASSIMIN BUCHE (Contralto)



. PETER FLENTERIE (tenor)



. UDO YONG (Violino)





Sontag 4 April 2006 ………….. 21.00 Uhr





O supra citado primeiro violino era um belo rapaz; filho de Mãe Alemã e Pai Coreano, tinha alguns traços Orientais, mas herdou muito mais do gene maternal.

Alto, magro, bonito, simpático, cabelo loiro, não exageradamente comprido, olhos azuis da cor do Oceano Atlântico e amendoados a lembrar a Ásia; músico de profissão numa orquestra famosa e reconhecida mundialmente, era o filho que quaisquer Pais gostariam de ter.

Gostava de novos desafios e experiências e pensou ir experienciar a vida e testar a atenção dos Berlinenses.

Dois dias depois do seu grande sucesso no concerto, resolve ir até á estação do metro “ Richard Wagner Platz; “ e já no seu interior, na galeria principal, senta-se no chão, retira o violino da caixinha, troca-o por algumas moedas e começa a executar exactamente o que tinha tocado dois dias antes no famoso e caro concerto.

A estação é central e de muito movimento, mas poucas são as pessoas que lhe dão atenção; algumas param por instantes e seguem a sua vida; outras são mais simpáticas e atiram algumas moedas para dentro da caixinha do violino.

Mas, há uma jovem loirinha Alemã, linda como todas as jovens loirinhas alemãs, que passa e reconhece em primeiro lugar a música, pára, fica a ouvir e entretanto reconhece o artista, fica maravilhada e quando ele termina de tocar, batendo palmas, exclama:

“Bravo! … Bravo! … é maravilhoso… eu estive na Kammermusiksaal e adorei; reconheci-te e queria dizer-te que gosto muito da vossa Filarmónica e da vossa música; eu própria ando a estudar música na escola superior “ Hans Eisler “, estou no último ano e adorava um dia tocar violino como tu…”

“ Ah… muito obrigado… és muito simpática… olha, eu comecei a estudar música aos 4 anos na Staatsmusikschule; era o meu Pai que me acompanhava nas viagens à escola, até que me tornei autónomo e ia sozinho.”

“ Sim, sim, vais consegui-lo se tiveres isto em atenção:”

“ Não basta ter talento e gostar, é preciso trabalhar muito… muito…; quando as 24 horas do dia não te chegarem para estudares e ires às aulas, levanta-te uma hora mais cedo e assim o dia passa a ter 25 horas; se o fizeres vais conseguir; desejo-te de todo o coração que o faças e com êxito.”

“És muito simpático! … muito obrigada!.. já faço isso desde que estudo, nunca chumbei um ano, sou muito disciplinada e estudiosa.”

A música é um romance sem fim…havia magia no ar… toda a atmosfera envolvente era de fantasia…no ar pairava uma atracão, que só poderia ter sido ensaiada por todos os Deuses do amor… e por Santa Cecília a padroeira dos Músicos.

Mais informo que a conversa não se findou por aqui; prolongou-se na esplanada de um dos muitos bares de Berlim e enquanto saboreavam uma deliciosa cerveja Rhenania Alt ou Gleumes trocaram de número de telemóvel, disso tenho eu a certeza…

É que o Cupido andava por ali a fazer das suas!...


                 Mário Miranda

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