O CONTO DO VIGÁRIO
A inocência das pessoas simples, sem maldade, que desconhecem o que há de pior na Sociedade actual, são por vezes vitimas da sua boa fé e de acreditarem em toda a gente, até nos vigaristas e mentirosos.
Nas grandes Cidades e suas cercanias, com os seus imensos aglomerados populacionais, os seus habitantes, pela experiencia de vida que travam diariamente, para não se deixarem enganar, estão mais alertadas para os “ contos do vigário “ tornando-se assim terreno menos fértil para os “ artistas “ deste modo de ganhar a vida.
Assim, nas pequenas isoladas e abandonadas aldeias do nosso interior é que há terreno fértil para cultivar não só as deliciosas e fresquinhas batatas, couves, alfaces, tomates, feijão verde, as doces e sumarentas cebolas, que são as melhores de Portugal e arredores, terreno que também serve de alimento e sustentação a arvores que nos dão frutos saborosíssimos e de excelente qualidade, bons para manter uma vida saudável tais como: Figos, maças, pêssegos, peras, diospiros etc; dizia eu, aqui sim é que há o terreno certo no sítio ideal, para estes fora da lei, fazerem das suas…
Para que haja todo este maná de alimentos perfeitos, as pessoas têm que estar nos campos todos os dias durante todo o dia.
Fazem-se acompanhar e rodear de Amigos, como por exemplo o cão, o mais fiel amigo do homem, da cabra ou ovelha, que é também amiga pois dá-nos o leite e passa o seu Santo dia entretida a pastar sem incomodar ninguém, sem protestos nem más criações, e finalmente dos Amigos e vizinhos de sempre, com quem brincaram quando eram crianças, com quem andaram na Escola e agora já adultos e maduros, pais de filhos e avôs de netos, continuam juntos na sua aldeia, a resistir a tentações de emigrar quer para os cinco cantos do mundo, quer para as grandes Cidades do nosso país.
Embora haja aqui e ali sessões de esclarecimento e alerta para este tipo de crimes, não violentos, valha-nos isso, a sua informação não chega a todos os ouvidos, porque esses órgãos de audição estão nos terrenos a preparar a terra para receber a semente, que irá mais tarde germinar, num esforço titânico para romper a terra, ou porque esses ouvidos já ouviram tanto, que quase se recusam a funcionar, ou se o fazem, fazem-no com deficiência.
Vem isto a propósito, de uma simpática e porreirinha velhinha, que caiu na esparrela, apesar de ser vivaça, agarradinha aos tostões e ninguém acreditar que algum a Tia Lucinda caísse na ratoeira.
A cena desenrolou-se numa pequena e típica Aldeia Beirã, onde se podem contar, com muito boa vontade, trinta casas centenárias, com fortes paredes em granito, algumas com telhados em ardósia, e cerca de quarenta habitantes, na sua grande maioria idosos, onde há somente uma rua principal, empedrada com aquela pedra escura de calçada, e que vai aqui e ali dando ramais ora para a esquerda ora para a direita, estes mais pobres, porque as pedras da calçada deram lugar a terra batida e pisada pelos rebanhos de cabras e ovelhas, a adivinhar pelos excrementos que os animais deixam no chão, e á falta de melhor, serve de cartão-de-visita desta Aldeia.
Numa amena tarde, de um Domingo de Agosto, estava a nosso simpática personagem, vestida no seu melhor traje Domingueiro, de cor escura, sinal de viuvez, sentada á porta de sua casa a conversar com o seu vizinho e contemporâneo, quando subitamente lhe parou um carro á porta.
Solícita, como sempre, pensou para com os seus botões: “ Mais um que não sabe o caminho para o S. Macário “ o que não era nenhuma anormalidade, pois já muitas, muitas, vezes tinha servido de guia para turistas desorientados e sobretudo perdidos por falta de sinalização eficiente e adequada.
Levantou-se como pode e os seus oitenta anos deixaram, e com a ajuda da sua bengalinha, que a acompanhava para todo o lado, dirigiu-se ao vidro da porta do carro, do lado contrário ao do volante e que dava para o lado onde estava sentada, e viu um chaufeur, limpinho, engravatado, abrir o vidro e mostrar intenções de lhe perguntar qualquer coisa., o que fez de imediato.
Como os seus ouvidos já faziam greve há muito tempo, e movida pela curiosidade, teve mesmo que meter a cabeça dentro do carro, para entender o que o forasteiro lhe queria perguntar ou dizer.
“ Que trazia ali uma linda oferta da sua melhor Amiga, de quem era vizinho, e lhe pedira para entregar, já que andava por aqueles lados em viagem de negócios, e agora ela que adivinha-se quem era essa sua Amiga!..
“ Grande Amiga? … grande Amiga? … só pode ser a Maria do Rosário de Lamego. “
“ Ora é essa mesma, a Maria do Rosário de Lamego, que é minha vizinha e muito boa rapariga. “
A nossa simpática velhinha havia mordido o isco na perfeição!..
Saiu do carro, abriu a porta de trás, de onde retirou um embrulho, de dimensões aproximadas, sessenta vezes quarenta vezes oito, sofrivelmente decorado, mas o suficiente para fazer recordar a saudade da Amiga distante e fazer brilhar as luzinhas de mistério e surpresa, e entregou-o á nossa personagem.
Depois foi a ladainha do costume, era vizinho da Maria do Rosário, que tinha gasto dinheiro em gasolina para lhe entregar o embrulho, se o podia ajudar com algum dinheiro porque também tinha dificuldades, vários filhos e por ai fora…
E a nossa Velhinha lá vai a casa levar o embrulho e buscar cem euros que entrega ao burlão passados uns instantes.
Este não contente com tão pouco dinheiro volta a atacar no sentido de sacar mais alguns euros… que era pouco, se não tinha mais dinheiro em casa… enquanto lhe atirava discretamente, uns vapores hipnóticos bem para o centro da face… a partir daí estava dominada, e foi a casa buscar todo o dinheiro que tinha, entregando-o ao vigarista engravatado. Este, ainda duvidando, perguntou? Não tem mais?.. Peça ao seu vizinho, que entretanto assistia a todo este teatro, sem se aperceber que estava a ser testemunha ao vivo de uma cena do conto do vigário, e também não interveio porque não tinha que o fazer.
“ O quê, pedir ao meu vizinho? Ele ainda é mais forreta do que eu “ foram as últimas palavras trocadas entre os dois intervenientes, já que entretanto o vigarista engravatado havia acelerado calçada acima sem deixar qualquer rasto, a não ser os vapores hipnóticos e a nossa velhinha meia adormecida meia acordada, ainda sem saber se estava a viver um sonho ou uma realidade.
Uma coisa foi certinha, direitinha, como diz o nosso Camilo, ficou sem os quatrocentos e oitenta euros que era quanto tinha em casa.
Foi o preço de uma toalha de mesa, uma de rosto dois guardanapos de pano e duas toalhas de bidé, que era o que continha o embrulho supra citado e sofrivelmente embrulhado.
Caro não é?..
Mais tarde já sem vestígios de vapores hipnóticos, dizia encolhendo os ombros:
“ Ele não me roubou nada eu é que lho dei. “
Os seus familiares mais próximos nem queriam acreditar no que lhe contaram.
“ Como é possível a Tia Lucinda cair numa armadilha destas, quando ela é tão forreta…
Como é possível uma coisa destas?..
Estes pequenos crimes, onde se usa somente a arte de representar dos actores ainda vão lá… do mal, o menos… o prejuízo é só material e fica a história para ser contada á lareira e ser motivo de brincadeira e risada.
Foi aliás o que sucedeu várias vezes em outros tantos serões.
Mas nada que não mereça justiça, neste caso justiça leve mas musculada.
De lamentar e a pedir justiça pesada, enérgica e exemplar, são os crimes violentos e de homicídios que tomamos conhecimento diário, são importados e amedrontam muita gente.
Estes já não são motivo de diversão e risada ao serão da lareira, pelo contrário geram revolta, dor e a pedir mudança radical no nosso Código Penal.
Mário Miranda
A inocência das pessoas simples, sem maldade, que desconhecem o que há de pior na Sociedade actual, são por vezes vitimas da sua boa fé e de acreditarem em toda a gente, até nos vigaristas e mentirosos.
Nas grandes Cidades e suas cercanias, com os seus imensos aglomerados populacionais, os seus habitantes, pela experiencia de vida que travam diariamente, para não se deixarem enganar, estão mais alertadas para os “ contos do vigário “ tornando-se assim terreno menos fértil para os “ artistas “ deste modo de ganhar a vida.
Assim, nas pequenas isoladas e abandonadas aldeias do nosso interior é que há terreno fértil para cultivar não só as deliciosas e fresquinhas batatas, couves, alfaces, tomates, feijão verde, as doces e sumarentas cebolas, que são as melhores de Portugal e arredores, terreno que também serve de alimento e sustentação a arvores que nos dão frutos saborosíssimos e de excelente qualidade, bons para manter uma vida saudável tais como: Figos, maças, pêssegos, peras, diospiros etc; dizia eu, aqui sim é que há o terreno certo no sítio ideal, para estes fora da lei, fazerem das suas…
Para que haja todo este maná de alimentos perfeitos, as pessoas têm que estar nos campos todos os dias durante todo o dia.
Fazem-se acompanhar e rodear de Amigos, como por exemplo o cão, o mais fiel amigo do homem, da cabra ou ovelha, que é também amiga pois dá-nos o leite e passa o seu Santo dia entretida a pastar sem incomodar ninguém, sem protestos nem más criações, e finalmente dos Amigos e vizinhos de sempre, com quem brincaram quando eram crianças, com quem andaram na Escola e agora já adultos e maduros, pais de filhos e avôs de netos, continuam juntos na sua aldeia, a resistir a tentações de emigrar quer para os cinco cantos do mundo, quer para as grandes Cidades do nosso país.
Embora haja aqui e ali sessões de esclarecimento e alerta para este tipo de crimes, não violentos, valha-nos isso, a sua informação não chega a todos os ouvidos, porque esses órgãos de audição estão nos terrenos a preparar a terra para receber a semente, que irá mais tarde germinar, num esforço titânico para romper a terra, ou porque esses ouvidos já ouviram tanto, que quase se recusam a funcionar, ou se o fazem, fazem-no com deficiência.
Vem isto a propósito, de uma simpática e porreirinha velhinha, que caiu na esparrela, apesar de ser vivaça, agarradinha aos tostões e ninguém acreditar que algum a Tia Lucinda caísse na ratoeira.
A cena desenrolou-se numa pequena e típica Aldeia Beirã, onde se podem contar, com muito boa vontade, trinta casas centenárias, com fortes paredes em granito, algumas com telhados em ardósia, e cerca de quarenta habitantes, na sua grande maioria idosos, onde há somente uma rua principal, empedrada com aquela pedra escura de calçada, e que vai aqui e ali dando ramais ora para a esquerda ora para a direita, estes mais pobres, porque as pedras da calçada deram lugar a terra batida e pisada pelos rebanhos de cabras e ovelhas, a adivinhar pelos excrementos que os animais deixam no chão, e á falta de melhor, serve de cartão-de-visita desta Aldeia.
Numa amena tarde, de um Domingo de Agosto, estava a nosso simpática personagem, vestida no seu melhor traje Domingueiro, de cor escura, sinal de viuvez, sentada á porta de sua casa a conversar com o seu vizinho e contemporâneo, quando subitamente lhe parou um carro á porta.
Solícita, como sempre, pensou para com os seus botões: “ Mais um que não sabe o caminho para o S. Macário “ o que não era nenhuma anormalidade, pois já muitas, muitas, vezes tinha servido de guia para turistas desorientados e sobretudo perdidos por falta de sinalização eficiente e adequada.
Levantou-se como pode e os seus oitenta anos deixaram, e com a ajuda da sua bengalinha, que a acompanhava para todo o lado, dirigiu-se ao vidro da porta do carro, do lado contrário ao do volante e que dava para o lado onde estava sentada, e viu um chaufeur, limpinho, engravatado, abrir o vidro e mostrar intenções de lhe perguntar qualquer coisa., o que fez de imediato.
Como os seus ouvidos já faziam greve há muito tempo, e movida pela curiosidade, teve mesmo que meter a cabeça dentro do carro, para entender o que o forasteiro lhe queria perguntar ou dizer.
“ Que trazia ali uma linda oferta da sua melhor Amiga, de quem era vizinho, e lhe pedira para entregar, já que andava por aqueles lados em viagem de negócios, e agora ela que adivinha-se quem era essa sua Amiga!..
“ Grande Amiga? … grande Amiga? … só pode ser a Maria do Rosário de Lamego. “
“ Ora é essa mesma, a Maria do Rosário de Lamego, que é minha vizinha e muito boa rapariga. “
A nossa simpática velhinha havia mordido o isco na perfeição!..
Saiu do carro, abriu a porta de trás, de onde retirou um embrulho, de dimensões aproximadas, sessenta vezes quarenta vezes oito, sofrivelmente decorado, mas o suficiente para fazer recordar a saudade da Amiga distante e fazer brilhar as luzinhas de mistério e surpresa, e entregou-o á nossa personagem.
Depois foi a ladainha do costume, era vizinho da Maria do Rosário, que tinha gasto dinheiro em gasolina para lhe entregar o embrulho, se o podia ajudar com algum dinheiro porque também tinha dificuldades, vários filhos e por ai fora…
E a nossa Velhinha lá vai a casa levar o embrulho e buscar cem euros que entrega ao burlão passados uns instantes.
Este não contente com tão pouco dinheiro volta a atacar no sentido de sacar mais alguns euros… que era pouco, se não tinha mais dinheiro em casa… enquanto lhe atirava discretamente, uns vapores hipnóticos bem para o centro da face… a partir daí estava dominada, e foi a casa buscar todo o dinheiro que tinha, entregando-o ao vigarista engravatado. Este, ainda duvidando, perguntou? Não tem mais?.. Peça ao seu vizinho, que entretanto assistia a todo este teatro, sem se aperceber que estava a ser testemunha ao vivo de uma cena do conto do vigário, e também não interveio porque não tinha que o fazer.
“ O quê, pedir ao meu vizinho? Ele ainda é mais forreta do que eu “ foram as últimas palavras trocadas entre os dois intervenientes, já que entretanto o vigarista engravatado havia acelerado calçada acima sem deixar qualquer rasto, a não ser os vapores hipnóticos e a nossa velhinha meia adormecida meia acordada, ainda sem saber se estava a viver um sonho ou uma realidade.
Uma coisa foi certinha, direitinha, como diz o nosso Camilo, ficou sem os quatrocentos e oitenta euros que era quanto tinha em casa.
Foi o preço de uma toalha de mesa, uma de rosto dois guardanapos de pano e duas toalhas de bidé, que era o que continha o embrulho supra citado e sofrivelmente embrulhado.
Caro não é?..
Mais tarde já sem vestígios de vapores hipnóticos, dizia encolhendo os ombros:
“ Ele não me roubou nada eu é que lho dei. “
Os seus familiares mais próximos nem queriam acreditar no que lhe contaram.
“ Como é possível a Tia Lucinda cair numa armadilha destas, quando ela é tão forreta…
Como é possível uma coisa destas?..
Estes pequenos crimes, onde se usa somente a arte de representar dos actores ainda vão lá… do mal, o menos… o prejuízo é só material e fica a história para ser contada á lareira e ser motivo de brincadeira e risada.
Foi aliás o que sucedeu várias vezes em outros tantos serões.
Mas nada que não mereça justiça, neste caso justiça leve mas musculada.
De lamentar e a pedir justiça pesada, enérgica e exemplar, são os crimes violentos e de homicídios que tomamos conhecimento diário, são importados e amedrontam muita gente.
Estes já não são motivo de diversão e risada ao serão da lareira, pelo contrário geram revolta, dor e a pedir mudança radical no nosso Código Penal.
Mário Miranda
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