O CESTINHO DE VIME



Como é sabido e, para nossa desventura, Portugal é um País pobre.

Nos princípios do Século vinte e, nas décadas que se seguiram, foi paupérrimo.

Os Portugueses tiveram nesses pretéritos tempos, vidas muito difíceis, complicadíssimas e de grande sofrimento.

Havia falta de tudo, em abundância só havia desgraça, miséria e privação.

As famílias eram numerosas, pelo que os pais tinham a impossível tarefa de arranjar comida, para matar a fome dos seus filhos, o que não conseguiam fazer, mesmo trabalhando de Sol a Sol como se usava na altura.

As dificuldades eram generalizadas, toda a população as sentia, sendo que nas aldeias rurais, do interior e isoladas este flagelo era ainda pior, mais doloroso, cruel e implacável.

Viver no limiar da sobrevivência era simultaneamente uma arte e uma calamidade.

Dinheiro não havia para comprar alimentos, mesmo que estes estivessem disponíveis na pequena mercearia da aldeia.

Era pois pura ficção tal empreendimento.

E tempos houve no pós guerra que mesmo com dinheiro, não havia nada que comprar.

Era a altura do racionamento, que funcionava mais ou menos assim:

Era distribuído pelo povo umas senhas, com elas, depois de muita espera em longas filas, era dada alguma farinha, azeite, pão, enfim alguma coisa para meter na panela.

Vou narrar uma história muito triste, chocante, de meter dó.

A história de um lutador, que também era marido e pai, com um elevado sentido de responsabilidade e sacrifício, disposto a trabalhar e a dar tudo e, tudo fazer no sentido de inverter o ponteiro da bússola que apontava um caminho armadilhado de ausências de boas coisas, e repleto de coisas más.

Era um mineiro das minas de S Domingos em Mértola.

Lá bem no fundo da sua mina e no interior da nossa Terra, na hora do almoço, isolava-se dos seus companheiros de infortúnio, pegava no seu cestinho redondinho de vime, fabrico artesanal, com uma pega arco-íris, tapado com uma toalhinha feita á medida e tipicamente Alentejana, e afastava-se dos seus colegas até os perder de vista, ou por eles não ser visto, regressando algum tempo depois, fingindo que já tinha almoçado.

Na verdade, no seu cestinho de vime, preparado com todo o carinho, amor e simplicidade pela sua Santa mulher, este cestinho de vime, não tinha no seu interior nem uma dura côdea de Pão.

A Carmelinda, assim se chamava ela, não tinha rigorosamente nada para lhe por lá dentro e que servisse de alimento àquele herói que estava a perder aos poucos, mas cada vez mais, a luta contra a falta de tudo…

Também ela a Carmelinda era impotente para alterar o que quer que fosse, estava vazia, esgotada e sem esperanças em melhores dias. Restava-lhe o respeito e a admiração infinita que tinha pelo seu Homem, as lágrimas, quase esgotadas de tanto chorar e a revolta de não ser capaz de mudar o rumo da sua sina…

Mas, no seu cestinho de vime, o nosso herói tinha duas ou três pedrinhas para fazer peso, o peso que faltava em alimento, não fossem os seus colegas, por engano, ou qualquer outra razão, pegar no seu cestinho de vime e artesanal e, verificar que estava vazio.

Eram tempos de miséria deprimente.

Naturalmente que este bom Português não se fez velho.

Com a falta de tudo, com o trabalho duro e o pó das minas, morreu prematuramente com uma doença profissional.

Outra história que qualifica as carências desses tempos, também lá para os lados desse Alentejo rejeitado.

Um filho chega a casa para almoçar e a Mãe diz-lhe: “ Olha filho a galinha ainda não pôs o ovo, tens que esperar mais um bocadinho.”

Quanto de impotência, decepção, revolta, humilhação e outros qualificativos estão contidos na expressão desta Mãe que não tem que dar de comer ao seu filho.

Não há nenhum compatriota que tenha hoje mais que sessenta anos que não tenha uma triste história, destas ou parecida, para contar, sinónimo de que elas abundavam, para mal dos nossos pecados…

Assim e para fugir á fome e tentar uma vida melhor as Pessoas abandonavam as suas terras e procuravam a sua sorte no Litoral, na Capital e seus subúrbios, dando origem à desertificação do interior e uma desmesurada enchente em Lisboa.

Mas, esta troca só por si não era garantia de vida abundante.

A falta de muita coisa elementar ao bem-estar mantinha-se.

A Pátria continuava a mesma, madrasta, no Litoral, em Trás-os-Montes, nas Beiras e no Alentejo.

Nem sempre, pelos mais variados interesses, o Homem está receptivo a aceitar a sua sorte e, pior do que isso a resignar-se com ela.

Sendo assim, tem dúvidas, faz perguntas e interroga-se?

Pelo exposto às vezes não se cumpre a Palavra de Deus, ou então nem em sonhos Deus sonhou haver País tão pobre.

Deus diz na sua palavra Divina que: “ Não faltará comida aos passarinhos, muito menos faltará alimento ao Homem.”

Pessoas de fé acreditam que onde há carências, pode também haver a mão Divina com todo o seu poder, vejamos:

Certo dia a Mãe de duas crianças, queria cozinhar para dar de comer aos seus meninos e não tinha gás.

Pior ainda é que não tinha dinheiro para o comprar.

Desesperada e sem saber o que fazer saiu de casa na esperança de encontrar alguém conhecido que lhe resolvesse o problema.

Não encontrou ninguém e regressou a casa banhada em lágrimas de tristeza, aflição e desespero.

Ao entrar na porta do prédio onde vivia, viu no chão uma nota de cem escudos, novinha, linda, que foi certamente deixada de propósito, para aquela Mãe aflita resolver o seu problema.

Nesse dia teve certamente o seu Anjo protector por perto a zelar por si e pelos seus Meninos.

Todos nós temos o nosso Anjo da guarda, pena que nem sempre ele nos possa ajudar na hora em que necessitamos dele.

Uma coisa é certa, as histórias são verdadeiras, das personagens, só não conheci o nosso mineiro, que pagou muito caro ter nascido neste cantinho florido, não de flores lindas e perfumadas, mas de rosas negras e com picos.

                                                         Mário Miranda

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