MALDITA AMIGDALITE





Naquela manhã acordei com dor de garganta. Mãe ... dói-me a garganta - gritei

ainda da cama. Ela veio, olhou-me com um ar de quem troçava da minha aflição,

e mandou-me abrir a boca. Fez uma careta engraçada quando viu a inflamação lá no

fundo e a brancura da minha língua.

Estás bonito, estás ... disse ela apalpando-me a testa. As mãos da minha mãe

eram ásperas do cieiro e do trabalho mas, mesmo assim, eu adorava o seu

contacto e, por vezes, fingia estar mais doente do que realmente estava para ser

acariciado por elas. Tens febre - continuou - hoje não sais da cama e, se amanhã

nao estiveres melhor, temos que chamar o Doutor Bandeira.

Nao me importei muito. Com o frio que fazia lá fora, até era bom ficar na cama.

Fiquei a tentar decifrar pelos ruídos que me chegavam o que se passava na

cozinha . Era enorme a nossa cozinha mas, como ela era o centro da nossa casa

e nós eramos tantos, nunca me pareceu assim tão grande. Era ali que acontecia

quase tudo, onde comíamos na mesa comprida, excepto aos domingos em que

almoçávamos na sala, onde faziamos os serões debaixo da grande chaminé em

que o meu pai, com o Branquito ao colo, nos falava do seu tempo de caixeiro em

Lisboa ou das ocorrências do dia.

Ouvi o meu pai mandar o Tónio buscar água à fonte para todos lavarem a cara

porque a que estava no caneco estava gelada e a que vinha da fonte,

estranhamente, estava, comparativamente, quentinha. Depois, pelo bater das

tijelas e pela algazarra dos meus irmãos, soube que o café com leite e o pão com

manteiga serrana (manteiga tão boa nunca mais encontrei) estavam na mesa.

Entretanto ia olhando pela grande janela do quarto aquela bonita manhã de

Inverno.No Arreto do Tio Fragas (mas que nós cultivávamos) as couves e as

videiras, ainda cobertas pelo manto branco da geada, brilhavam ao sol enquanto

os passaritos voavam chilreando alegremente.

Pouco depois ouvi o meu pai descer ao quintal e percebi que ia dar comer ao

nosso cavalo: o célebre Flecha. 0s meus irmãos mais velhos andavam apressados

de um lado para o outro aprontando-se para seguir para a escola. No ano

seguinte tambem eu iria com eles e, quando pensava nisso, sentia uma mistura de imensa

curiosidade com algum receio. Diziam que o senhor professor tinha uma

palmatória com cinco olhos, o que me fazia uma grande confusão, e imaginava um

professor muito grande e muito zangado infligindo torturas aos meninos que não

soubessem a lição.

Na rua passava, agora, um carro de vacas (era assim que se dizia em Mourel e

não carro de bois como vinha nos livros), com as rodas batendo com estrondo nas

pedras da calçada e emitindo o seu chiar caracteristico. Era o Delfim Pisco que

dizia: eixe Amarela; oou Ramalha e logo de seguida falou alegremente com a minha

mãe que estava a abrir a porta da loja.

0 Tónio e o Zé desceram as escadas em grande correria nao ligando ao lsidro

que, aflito, pedia que esperassem por ele. Ouvi a minha mãe chamar os

apressados que já iam ao pé da casa do Ferraz: Meninos, esperem pelo vosso

irmão e vão com juizinho. Eu fiquei a pensar em como os meus irmãos eram tão
 
fortes e corajosos que, apesar da palmatoria do professor, corriam contentes  para 


a escola.

Do quintal o meu pai gritava: Odete! Onde esta o chicote? Era já uma norma

naquela casa - nunca se sabia onde estavam as coisas, especialmente o

chicote. De certo modo, era compreensivel que assim fosse. Numa casa tão

grande, com oito pessoas mexendo nos mesmos objectos, cada um elegia o seu

sítio ideal para guardar determinada coisa só que, por azar talvez, esses sítios

nunca coincidiam.

A minha mãe também não sabia onde estava o chicote mas, antes que o meu pai

fizesse um drama em três actos que se chamaria: " 0 Chicote Desaparecido", saíu

apressada da loja e fácilmente encontrou o malfadado chicote exclamando para

o meu pai: Santa Luzia ! Se fosse um bicho até te mordia! Riu por ter rimado sem

querer e o meu pai, um pouco contrafeito ao principio, riu também olhando com

gosto a face corada daquela mulher que o desconcertava com a sua calma e que

ele tanto admirava.

Logo de seguida, o Flecha e a sua carroça com o meu pai em cima desceram a

calçada e seguiram para S. Pedro onde, regularmente, íamos buscar as

mercadorias para abastecer o nosso estabelecimento de Mercearia e Taberna.

A Cila e o Manel Carlos apareceram em grande correria trepando para cima da

minha cama abanando-a e fazendo uma grande algazarra. Queriam que eu fosse

brincar com eles e não compreendiam porque razão estava eu ainda deitado.

Tentei explicar-lhes mas, como nao podia gritar, eles não me ouviam no meio das

suas traquinices até que, tal como tinham chegado, sairam a correr e foram para

os lados do jardim talvez para brincar no nosso baloiço que era uma corda presa

nas traves do alpendre.

Tudo se acalmou e estava a dormir quando senti os passos da minha mãe no

corredor.

Que luxo - dizia ela entrando - hoje tens direito ao pequeno almoço na cama.

0 cheiro agradável do café e do pão com manteiga abriram-me o apetite mas,

quando fui para engolir, as amigdalas, que estavam enormes, obrigaram-me a

refrear o entusiasmo.

Mal a minha mãe se tinha sentado na borda da cama disposta, certamente, a

fazer-me um pouco de companhia solidarizando-se com as minhas dificuldades

ao nivel da deglutição, ouviu-se um forte e estridente grito vindo do fundo das

escadas: Oh Sôdetinha! Oh Sôdetinha!

Pronto, acabou-se o sossego - disse a minha mãe levantando-se enquanto

gritava para a moça que nao se calava: Já la vou , Laurentina.

Sempre foi assim a vida da Mãe Odete depois de casada. Descia à loja para

atender os fregueses, subia ao primeiro andar para fazer a lida da casa. Embora

sempre tenha havido uma empregada enquanto fomos pequenos, educar e tratar

de sete filhos não era tarefa fácil especialmentee quando tinha que atender infelizmente, o  seu coração  veio,

mais tarde, a ressentir-se deste sobe e desce constante.

Ao fim da manhã apareceu a Guida. Era a minha irmã mais velha e morava em

casa da Mãe Guida, (que ficava do outro lado da rua), e talvez por essas duas

circunstâncias, tinha um estatuto especial para nós. Sabia muitas coisas, tinha um

especial prazer em ensinar-nos, (prenúncio do que viria a ser a sua profissão), e
 
 
eu, embora não percebesse metade do que ela dizia, adorava ouvi-la. Era uma


pequena mãe, compenetrada do seu papel e nós respeitávamo-la como tal.

0 Manel Carlos era seu afilhado e ele chamava-a madrinha e tratava-a por você,

costume que se prolongou, se não me engano, até à adolescência dele.

A Guida vinha prestar os seus serviços de enfermagem e começou por me pôr o

termómetro debaixo do braço. Depois de lêr no termómetro que eu estava com

alguma febre, fez um ar de preocupada e foi para a loja falar com a mãe.

De tarde veio a Mãe Guida visitar o doentinho. Era avó mas nunca a chamámos

senão Mãe Guida. Nao sei explicar  porquê mas nós gostávamos de chamá-la assim e, para nós, seria quase
uma ofensa chamá-la avó.
Eu gostava muito dela mas, o seu feitio mais austero, incutia-me muito respeito.

Teve muita influência na nossa educação especialmente, penso eu, por ser, em

muitas coisas, o oposto da filha, que tinha um feitio mais parecido com o pai , o

nosso Avô Zé.

Por exemplo, enquanto a Mãe Odete condescendia quase sempre com as nossas

travessuras ou pequenos erros, a Mãe Guida exigia que se cumprissem sempre as

regras fossem de educação, de comportamento ou mesmo na ajuda em casa.

Quando ela saiu, recomendou mil cuidados e fez-me ver que só tinha ficado

assim porque não tinha juízo e na véspera tinha andado toda a tarde a jogar à bola

e a suar que nem um desalmado. Protestei, mas com pouca convicção porque

sabia que ela, mais uma vez, estava certa.

Mas jogar à bola era a coisa mais divertida e excitante que eu conhecia e estava

disposto a correr todos os riscos para poder ter o prazer de marcar um golo aos

meus irmãos ou a qualquer um dos outros miúdos que costumavam aparecer no

largo em frente da loja para os nossos intermináveis e renhidos desafios.

Passado pouco tempo, ouvi a voz do Tio Fragas que, na rua, falava com o Avô

Zé. Estes dois homens, que deviam rondar os setenta, eram duas figuras que

marcaram a minha infância pelos seus exemplos de homens bons, integros e

sensatos. O Tio Fragas era uma figura interessante, dizia sempre coisas

engraçadas e diferentes, era único. 0 Avô Zé era mais normal, um excelente

carpinteiro, teve uma boa carpintaria no Rio de Janeiro. Gostava muito de nós. Por

vezes, sentava-se num banco à porta da loja, pegava-me na mão e dizia:  faz mão

morta. Eu relaxava a mão e ele batia com ela na minha testa, de forma cadenciada, enquanto

recitava esta cantilena:

                                             Mão morta, mão morta,

                                             Filhinhos à porta

                                             Sem ter nada que lhes dar

                                             Senão umas pedrinhas de sal
           
                                             Sal,sal,sal,sal,sal,sal

Batendo com mais força e mais rápido no ultimo verso. Depois ria-se e eu,

embora meio atordoado, ria-me também, satisfeito por ter um avô que gostava de

brincar comigo.

Tentei perceber qual o tema da conversa e ouvi algumas palavras soltas: frio,

neve.Fiquei em pulgas com a hipótese de vir aí um nevão porque adorava brincar

na neve com os meus irmãos. No ano passado a neve tinha sido tanta que

tinhamos feito um bonito boneco de neve que, coitado, só durou dois dias.

Estava a pensar se a minha mãe me deixaria brincar na neve mesmo com febre

quando ouvi as ferraduras do Flecha a bater na calçada; era o meu pai que

chegava da vila.

Houve toda a azáfama habitual de descarregar a carroça enquanto o Flecha

bufava, impaciente por regressar ao seu curral e à manjedoura cheia de erva verdinha

misturada com feno.

0s meus irmãos mais velhos, que entretanto tinham chegado da escola,

ajudavam na tarefa, entusiasmados com a hipótese de haver novidades entre as

compras que o meu pai trouxera. Era uma coisa de que também eu gostava

porque, além das mercadorias mais pesadas ( arroz, açúcar, bacalhau, etc ...) que

vinham do armazém Adelino & Silva, vinham também  o que chamávamos as miudezas do armazém do  sr.

António José Bandeira Carvalhas ( pessoa muito simpática até para nós, crianças, e pai do conhecido

político Carlos Carvalhas) era uma alegria quando encontrávamos coisas novas,

mesmo que fosse uma nova marca de carrinhos de linhas, ou diferentes cadernos

para a escola ou, até, bombas para o Camaval.

A noite caíu quase de repente e o meu quarto ( meu e de mais quatro "indios")

ficou às escuras. A electricidade tão desejada, estava prometida para breve.

Como nunca a tinhamos tido, nao sentíamos muito a sua falta. Estávamos habituados

aos candeeiros a petróleo, às velas, aos lampeões e aos gasómetros para nos

livrar da escuridão.

Não fiquei muito tempo sózinho. 0s meus irmãos entraram de rompante e, como

já era costume, começou a "batalha camal", assim designada porque decorria toda

em cima das camas de ferro. As almofadas voavam em todas as direcções e as

cabeceiras das camas eram os castelos que, depois de conquistados, serviam para

dali se formarem grandes saltos para cima dos inimigos. Perdia quem caísse

abaixo das camas.

0 meu pai entrou subitamente e mandou parar tudo mas a refrega estava no

auge e ninguem o ouviu, de tal maneira estávamos concentrados em conquistar os

louros da vitória. Então, o " Feijão de Mourel", como era conhecido em todo o lado,

usou a sua arma infalivel para estes casos: meteu dois dedos na boca e assobiou

de tal forma que, imediatamente, todos ficámos estáticos e espantadissimos a

olhar para ele.

Tambem eu tinha andado na bulha e estava todo suado e quase nu. 0 meu pai

olhou para mim com um ar severo e disse: com que então o menino estava muito

doente mas, para estourinhar desta maneira, ja está bom. Puxou-me por uma

orelha, abriu a minha cama e enfiou-me lá com um pequeno empurrão.

No dia seguinte não estava melhor e a minha mãe chamou o médico. Fiquei "à

rasca" porque sabia o que me esperava.

0 Doutor Bandeira chegou à tardinha no seu fato impecável. Para mim, ele vestia

assim, tinha as mãos bem tratadas, andava muito direito e não se ria, só porque

era médico e nem suspeitava que houvesse médicos diferentes. Observou as

minhas amigdalas, pôs-me o termómetro e de seguida, tal como eu temia, tirou da

sua pasta de couro uma enorme seringa acompanhada de uma enorme agulha.

Colocou um pouco de alcoól numa caixa metálica comprida, chegou-lhe lume e

ferveu a seringa e a agulha.

Enquanto observava tão estranhos gestos o meu nervoso foi aumentando de tal

modo que não quis ver mais nada e preparei-me para o pior. Ainda antes de sentir

a picada da agulha já estava a morder furiosamente a almofada e assim fiquei

enquanto a penicilina penetrava lentamente, dolorosamente.

Custou mas valeu a pena, ao outro dia de manhã já não tinha febre. Quando a

minha mãe abriu a janela do quarto fiquei felicissimo com o espectáculo. Nevara de

noite e tudo estava branco e bonito como eu poucas vezes vira. Comecei a

levantar-me e na minha cabeça já andavam dezenas de bonecos de neve e muitas

bolas para atirar à cabeça dos meus colegas de brincadeira quando a minha mãe

me puxou novamente para debaixo das mantas. Com que então já querias ir para a

neve! Nem pensar nisso. Ai de ti se sais da cama hoje - disse a minha mãe com

firmeza.

Ainda tentei protestar: Oh mãe, mas eu já levei a injecção, já estou bom. Mas ela

não me deixou esperanças. Já te disse, se saíres da cama levas outra injecção.

Que pena! 0 pior era que a neve não vinha todos os anos. Sabia lá quando voltaria

a ter uma oportiunidade daquelas. Maldita amigdalite!

Mourel, Dezembro de 1954

Sergio Figueiredo

Comentários

  1. Olá Sérgio estás melhor da tua amigdlalite? Desejo francamente que sim. Era isto que eu te estava a pedir há muito tempo, que escrevesses qualquer coisa que tardava. A história é linda - tirando a pica claro - a claresa, fluidez e espontaniedade com que a retratas, trasportas o leitor para aquele Inverno, onde até eu gostava de ter estado, apesar de detestar o frio. Parabens por o teres feito, da maneira como o fizeste e já sabes estamos á espera de mais.Mário

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