Decorriam os anos sessenta, entre outras coisas isto foi notícia e mexeu connosco:
1960: Várias colónias Africanas conquistam a independência.
1961: É construído o muro de Berlim.
A Inglaterra inicia o pedido de entrada na Comunidade Económica Europeia.
Em Portugal Salazar toma conta da pasta da defesa.
A política Africana de Portugal é condenada na ONU.
Inicia-se a guerrilha em Angola.
Yuri Gagarine descreveu uma órbita em volta da Terra.
As tropas Indianas tomam Goa, Damão e Diu, até então território Português.
1963: O presidente da América John Kennedy é assassinado.
1964: Na Guiné inicia-se a luta armada contra as tropas Portuguesas.
Em Moçambique rebenta a guerrilha da Frelimo.
1965: Os Estados Unidos iniciam bombardeamentos regulares no Vietname do Norte
É assassinado o General Humberto Delgado, opositor ao regime ditatorial Português.
Na Inglaterra é abolida a pena de morte para os assassinos.
1966: A ONU impõe sanções económicas á Rodésia, África do Sul e Portugal recusa-se a fazê-lo.
Dá-se a Revolução Cultural na China.
Israel ocupa o deserto do Sinai, Jerusalém e a margem Ocidental do Jordão.
1968: O militante pelos direitos civis, Martin Luther King é assassinado nos Estados Unidos.
É assassinado Robert Kennedy, presidente Americano irmão do antigo presidente John Kennedy.
Tropas Soviéticas invadem a Checoslováquia para esmagarem a liberalização do secretário geral Alexander Dubcek.
Salazar sofre um acidente vascular e é operado a um hematoma.
Marcelo Caetano sucede, no governo Português a Salazar.
Mário Soares regressa a Portugal é preso e deportado para S. Tomé.
1969: Morre Salazar.
Neil Armstrong é o primeiro homem a poisar os pés na Lua.
É extinta a PIDE e nasce a PVDE.
Pelo que nos é dado observar, Portugal enfrenta três guerras de guerrilha em outros tantos palcos, contra gigantes Africanos muitas vezes superior á sua superfície.
Os mancebos da época têm justificadamente receio de enfileirarem nos diversos ramos das forças armadas.
Fugir era impossível; As fronteiras estavam bem vigiadas, pelo que chegada a hora não havia outro remédio senão ir assentar praça e bater com os costados nas casernas.
Havia sempre no nosso interior uma ténue esperança de não ser mobilizado para África o que raramente acontecia porque as necessidades de militares, era proporcional á teimosia dos dirigentes de então, e não havia “carne para canhão que chegasse.”
Assim, numa manhã fria de Janeiro de 1963 apresentei-me no RAAF em Queluz para ser incorporado e tirar a recruta.
A recepção foi friorenta; Depois da tradicional carécada, foi o banho com água fria, na fria manhã de Queluz; que desconforto; era assim que a Pátria tratava os seus filhos, a quem tudo pedia e nada dava; Onde me meteram, comentava eu para com os meus botões!..
Passados três meses deixava o RAAF com a recruta feita e sem saudades da fria Queluz.
A etapa seguinte foi seis meses de especialidade no BSCF em Campo de Ourique, já com melhores condições, a água dos chuveiros é que continuava fria…
Finda a especialidade veio a mobilização, coisa que já esperava porque só não era mobilizado quem fosse protegido por algum Santo ou Cunha/Santo.
E, numa celebérrima manhã de Outubro de 1963 lá saímos do cais da Rocha, no Navio Pátria com destino a Moçambique.
Na bagagem ia uma miscelânea de emoções, sentimentos e sensibilidades que eram muito difíceis de gerir; Quando soltaram as amarras que nos ligavam á terra foi como se nos tivessem cortado o cordão umbilical e aí sim…as emoções eram intensas e sentíamo-nos indefesos, entregues nas mãos dos que nos comandavam e nas mãos de Deus.
Tínhamos pela frente vinte e tal dias de viagem de barco e no mínimo trinta para chegar ao destino.
A expectativa e curiosidade eram enormes; A grande viagem tinha começado, íamos conhecer África, que até então só conheciamos dos filmes do Tarzan com o John Weissmuller; Óóó-ió-ió-ió-ió… quem não se lembra!..velhos e bons tempos!..
A viagem decorria num barco super-lotado de homens, de muito mar, muito Sol e muita saudade; éramos por vezes surpreendidos com alguns peixes voadores, no seu desajeitado, baixinho e curto voo, alguns golfinhos, amigos e brincalhões, a medirem velocidades náuticas á frente da quilha do Pátria e assim chegamos a Luanda onde permanecemos um dia, que deu perfeitamente para vir a terra e sentir pela primeira vez os cheiros de África, apreciar a beleza da sua baía e beber uma cuca.
Depois foi navegar de novo, agora na direcção do mostrengo Bojador, com os seus temíveis e fortes ventos, e as suas ondas gigantes; Já o nosso poeta Camões nos alertava: “ Quem quiser passar para além do Bojador tem que passar para além da dor. “
Nestas suas imediações uma visita ao convés do barco era perigosíssima tal a força dos elementos, como diz o nosso mestre Camões.
De vento em popa e durante dez dias navegamos nesse imenso e azul mar até chegarmos a Lourenço Marques – a pérola do Indico como era conhecida – onde permanecemos um dia; pela segunda vez pisamos terra. Desta feita essa mítica, enigmática, atractiva e tropical África; e os nossos olhos ficaram deslumbrados com a beleza da sua baía.
Ia-se aproximando do fim a nossa viagem marítima; mais quatro dias ao longo da costa Moçambicana e estávamos em Nacala onde desembarcamos; Como boas-vindas tivemos uma forte chuvada tropical que nos deixou encharcados até aos ossos e nos deu a conhecer os cheiros Africanos; desta vez a combinação da terra quente, com a água da chuva, provoca a libertação de calor e isso tem um cheiro que só nos trópicos é possível experimentar.
Nova viagem de comboio até Iapala; daqui mudamos para machibombos – como são lá conhecidos os velhos autocarros – e rodeados sempre por densa floresta, por estradas de macadame, pontes e pontões, rios e riachos lá chegamos ao destino; Mocuba, uma vila do distrito da Zambézia, “ terra de raça, onde todos os caminhos se cruzam e a Zambézia se abraça.”
Isto é que é passear, dirá quem me lê!.. Mas, toda a gente sabe que não há almoços de borla!.. A Pátria não nos estava a dar nada, pelo contrário; a muitos estava a tirar o que tínhamos de mais importante, a própria vida, antes mesmo de ela ser vivida.
Com a chegada a Mocuba começava a nossa guerra:
Água potável não havia; para beber tínhamos que a comprar, gastando um terço do pré; banho era quando chovia aquelas celebérrimas chuvadas tropicais; a guerra de guerrilha teve inicio um ano depois de termos chegado, mais concentrada no Norte e fronteiras; a nossa guerra era outra.
A guerra da disciplina por exemplo; porque razão havíamos de ir formar ao Sol, com temperaturas de quarenta e cinquenta graus, quando o podíamos fazer á sombra de três mangueiras enormes que havia na parada?
E um dia houve greve: “ Atenção… Companhia… Sentido…em frente…marche “... e ninguém se mexia; nova tentativa do Sargento miliciano e o mesmo resultado, ninguém se mexia; resultado final; os três soldados da frente foram presos e deportados para Lourenço Marques, de entre eles um colega meu de trabalho; estas injustiças eram dolorosas, talvez mais que as próprias balas do inimigo.
A vida no quartel era monótona, sem interesse, sempre a mesma rotina; para a quebrar um dia ofereci-me para ir numa missão a duzentos kilometros de distância ao Gurué onde havia uma plantações de chá, numas Serras; para lá a viagem correu bem, a estadia foi sofrível, ficamos acampados no mato, comida eram rações de combate, e aí fiz a minha primeira guarda e única em todo o meu serviço militar; foi mais uma experiência para o curriculum; no regresso e ao passar por uma ponte feita com troncos de árvores, um ramo danificou o tubo do óleo dos travões do Land-Rover; bonito! … Estávamos na floresta, na Serra e sem travões! O nosso Comandante, armado em Chico esperto, resolve seguir viagem e ser ele próprio a conduzir a viatura, dizendo para o motorista que se houvesse problema na descida puxasse o travão de mão; boas intenções, má ideia; na descida o Laand-Rover começa a ganhar velocidade, bate na barreira da serra do lado direito e precipita-se serra abaixo do lado contrário; eu que estava á janela do lado direito vendo o perigo, consigo, com a ajuda da força da gravidade, saltar e ficar na estrada de macadame, assistindo às cambalhotas do Land-Rover, que felizmente ia sendo suavizado por árvores, acabando por se imobilizar e ninguém ter sofrido ferimentos de cuidado; uns metros mais abaixo havia um precipício de uma altura assustadora; estivemos ali nos limites de engrossar a lista negra dos combatentes caídos em África, que salvo erro é de 1.481.
De regresso ao quartel foi de novo o inicio da rotina; trabalhar, rancho, ir á vila beber uma sidra bem fresquinha, que pecava só por ser tão cara; o calor era abrasador, eu gostava dele assim, só era pena não haver líquidos em abundância e baratos; até que um dia meteram lá na parada um repuxo de água, com a particularidade de ser frigorífico e sair água fresquinha; era o oásis!..
Fazia-se bicha para se beber e encher os termos, que entretanto toda a gente comprou e quanto maior melhor.
Um dia estava eu de serviço, aliás eu estava sempre de serviço; éramos três colegas na secção, um tocava guitarra – o que apanhou prisão e foi deportado para Lourenço Marques- o outro jogava á bola, e eu como não sabia fazer nada além de trabalhar, estava sempre a alinhar, o que fazia com agrado.
Dizia eu que estava de serviço, e já altas horas da noite, depois de decifradas as mensagens e entregues ao Oficial de dia, fui ao repuxo e apercebi-me que estava lá um camarada, mas não dava para reconhecer mais do que isso porque a noite era de escuridão mesmo escura - não esquecer que estávamos em África – cumprimentei-o com uma boa noite, mais para meter conversa e saber quem estava ali; perguntei-lhe
se ele sabia quem era o Sargento de dia?
“É o Sargento Catarino “ responde ele com a sua voz provinciana grossa e rude.
“ Ah… é o nabo, já sei “, respondo-lhe eu.
“ Quê?...quê?… quê estás tú p’ra i a dizer? “
Azar o meu, a noite escura não me deixava ver que aquele vulto era do Sargento miliciano Catarino, nascido lá para os lados de Águeda, de onde trazia toda aquela essência que lhe valeu o cognome.
No meio da escuridão ainda lhe disse: “ Nada… nada”… e calei-me porque quanto mais falasse mais ele poderia reconhecer a minha voz e assim identificar-me e punir-me.
Entretanto ele já tinha o termo cheio e foi-se embora, dizendo, enquanto se afastava: “Amanhã acertamos contas”!..
No dia seguinte ele não me procurou; fiquei aliviado por isso; mas a primeira vez que nos cruzamos sozinhos na parada em vez de corresponder á minha continência, levantou o dedo indicativo e disse: “ Ainda temos umas contas a ajustar”!..
Sempre que nos cruzávamos na parada e não havia gente por perto, repetia-se a cena: “ Temos umas contas a ajustar”!..
Passou a ser segredo só nosso, que se mantém ainda hoje; quarenta e sete anos depois ainda temos essas contas por ajustar.
Mário Miranda
“

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