O VOO DA CEGONHA DO MONDEGO










A linda aldeia na encosta Sul da serra, vista de longe, parece um presépio com a sua árvore de Natal.

O seu pequeno casario construído de forma aleatória e em conformidade com a localização e dimensão dos terrenos, os seus montes, morros e vegetação espontânea, dão-lhe aquele toque de magia e de semelhança com uma árvore de Natal, mas sobretudo com um presépio sem faltar nenhumas personagens religiosas.

Lá do cimo da Serra contemplar a paisagem envolvente e colorida com predominância verde, é de extasiar.

É-nos dado o privilégio de observar sucessivos montes verdejantes que servem de habitação a frondosos pinhais, eucaliptais, castanheiros, carvalhos e para completar o cenário, lá bem no fundo do último vale, espraia-se o rio Vouga com as suas águas a espelhar o reflexo do Sol, pintando assim num toque de fascinação, este quadro só possível ser retratado pela Natureza.

Foi neste local paradisíaco onde tudo é paz e sossego, só interrompido de quando em quando pelo cantar do cuco, lá no alto dos pinheiros, ou pelo contente barregar de uma ovelha, que o Victor do Penedo herdou há tempos, um bom pedaço de terra.

Aí se iniciou como hortelão, como criador de galinhas, patos e coelhos, que o iam ajudando no orçamento caseiro, já que os tempos eram e ainda são, de dificuldades.

Vivia não muito longe dali, numa casa centenária, de paredes em pedra de granito, telhado de ardósia e o chão de tábuas de pinho, já gastas pelo peso dos anos e pelas botas dos seus habitantes.

Na entrada da casa havia um quintal que dava acesso ao lagar, á cortelha do gado e ao primeiro andar, subindo meia dúzia de toscos degraus de pedra onde era visível algum musgo nas suas uniões.

O nosso Victor do Penedo era um típico habitante de uma aldeia Beirã.

Trabalhava nas obras, onde era pau para toda a colher, fazia de tudo: Levantar paredes, muros, cofragens, assentar mosaicos, fazia de canalizador, electricista, carpinteiro etc, por causa disso até lhe puseram a alcunha do “ Jeitosinho.”

Estava a viver os melhores anos da sua vida, cheio de saúde, força e energia, de esperanças e sonhos, para ele tudo era possível de se conseguir, tinha o Mundo na mão e uma vida para ser vivida.

Era muito alegre, sempre bem-disposto, tinha sempre uma piada na ponta da língua para animar o ambiente e ninguém estava triste a seu lado.

Era casado com a Leonor, também ela uma moçoila lá da terra que já lhe oferecera uma linda filha, a Joana, que era a fotocópia da Mãe, rechonchuda e bem-disposta.

Estavam de novo á espera da chegada da cegonha, que devia chegar dentro de seis meses, vinda lá dos lados do Mondego, que por via aérea se faz em 15 minutos.

E, perante esta realidade pensaram, ele e a sua Leonor, que seria melhor construir lá em cima no terreno da horta e do galinheiro, uma casa que desse mais conforto às crianças e a eles próprios, que também eram filhos de Deus.

Terreno havia o suficiente para todos, para eles, para as galinhas, os patos e os coelhos.

Pediu ajuda aos colegas das obras e amigos e ei-lo a ornamentar a já paradisíaca e linda paisagem com mais uma casa, que depois de concluída e pintada de amarelo pintainho, como estava previsto, seria como que mais uma bolinha amarela na árvore do nosso Natal paisagístico

Trabalhadores por excelência que o são por norma, excedem-se ainda mais quando o fazem para si próprios e em breve trecho a casa estavam de pé, e com telhado.

Chegou entretanto a altura das madeiras:

Era necessário meter ombreiras, portas, armários, chão, e o dinheiro do Victor do Penedo era cada vez menos, o que tinha já havia sido gasto no cimento, tijolos, ferro, telhas e afins, e naturalmente em comes e bebes para os Amigos que o ajudavam gratuitamente, porque segundo dizia o bem-disposto Victor:

Deve-se comer e beber

Até a barriga dar o berro

E trabalhar devagarinho

Porque o corpo não é de ferro.

Diz-lhe o seu Amigo Zé Colmeia, conhecido assim porque se chamava naturalmente Zé, tinha várias colmeias na falda da Serra e vendia mel de rosmaninho.

Porque é que não vamos ali ao pinhal da Serra e cortamos lá uns pinheiros?

O nosso Victor não estava de acordo, roubar isso não, pobrezinho mas honesto, nem a minha Leonor queria semelhante coisa…

Sugere o Afonso de Passos, conhecido pelo "arquitecto" por ter sempre uma solução luminosa para cada caso complicado que ia aparecendo na obra:  Eh! Victor... Vai ao Luís Tabuínhas da Burgueta que ele faz-te as portas e as janelas e, depois, vais pagando conforme puderes.

Diz-lhe o “ Pinche “ conhecido assim por ser o menos qualificado do grupo de trabalho, um Amigão de sempre e sempre presente para ajudar no que fosse preciso, e também não se fazia rogado quando chegava a hora de beber um copo do americano branco e caseiro, tirado directamente do pipinho; era um regalo vê-lo saltitar no copo e maior ainda enviá-lo garganta abaixo.

Porque não vais pedir os Pinheiros ao Engenheiro João Ribeiro da quinta do Pendão?

Eh pá… eu sei lá… não o conheço, e a quinta é tão longe…

Vai… vai lá que ele tem lá um grande pinhal, com pinheiros gigantes, centenários e cascudos, que é preciso dois homens para os abraçar, ele é boa pessoa e dar-tos-á certamente.

Dito e feito, montou-se na sua velhinha motorizada Zundap e depois de uma boa hora de viagem, lá encontrou a grande propriedade de portão aberto de par em par, entrou com algum receio e foi á procura do Senhor Engenheiro.

O acesso era feito por uma estrada de terra batida, suficientemente larga para passar um tractor, ladeada do lado direito por um laranjal com enormes e apetitosas laranjas, de folhas viçosas e verdinhas a dizer que o dono percebe disto e não as deixava passar sede nem poupava no adubo.

Do lado esquerdo havia árvores de várias qualidades tais como: Figueiras, pessegueiros, pereiras, macieiras, nespereiras, alguns grandes e frondosos castanheiros e videiras, muitas videiras e é aqui que encontra um homem a fazer a poda, campóniamente vestido, de chapéu largo e manchado pelo suor do passado verão, roupas empoeiradas, botas grosseiras, bigode farfalhudo, alto, magro meia-idade,pele queimada do Sol, que cumprimenta e diz que estava ali para falar com o Senhor Engenheiro João Ribeiro.

“ Então e o que é que tu queres ao Senhor Engenheiro, pergunta-lhe o homem da poda?”

“ Ah…eu…eu… eu…só queria falar com o Senhor Engenheiro” responde o nosso Victor do Penedo, meio nervoso, e tímido, como um peixe fora de água.

“Fala… fala… fala lá. Diz o que te trouxe até cá. Eu sou o Engenheiro.”

Calhava-te… calhava-te… responde o nosso mestre-de-obras, como que a dizer, querias…querias…ser o Engenheiro, brincalhão, aqui a fazer a poda e todo sujo!

E não é que ele era mesmo o Engenheiro!

E apesar das dúvidas… o nosso herói lá recebeu luz verde para quando quisesse e precisasse dos pinheiros que os viesse cortar e levasse os maiores, mais gordos e cascudos.

Por esta altura já o nosso Victor terá as portas colocadas, os armários prontos envernizados e cheios de papas e fraldas para bebé, porque como é sabido estava á espera do voo da Cegonha, do Mondego até á nossa linda Serra e isso é coisa que qualquer Cegonha em boa forma física consegue fazer num quarto de hora.

                     Mário Miranda
                          

Comentários